RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Enterrar os fios de SP demanda discussão, investimento e tempo, diz presidente da Enel Brasil

BRASÍLIA, DF, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O presidente da Enel Brasil, que opera a distribuição de eletricidade na região metropolitana de São Paulo, Nicola Cotugno, rebate as críticas à atuação da companhia após o temporal da última sexta-feira (3) argumentando que foi um evento extraordinário.

“Não é para nos desculparmos, não. O vento foi absurdo”, afirma. Ele diz que a resposta à emergência foi dificultada pela enorme quantidade de árvores que caiu, forçando a empresa a trocar postes e reconstituir quilômetros de rede.

Cotugno afirma que o corte de pessoal nos últimos anos não teve impacto no tempo de restabelecimento, pois as equipes de campo foram preservadas. Diante de alertas sobre maior frequência de eventos extremos, o executivo diz que o país precisa “de um olhar diferente” para debater soluções que mitiguem os efeitos das mudanças climáticas.

*

PERGUNTA – Quando a empresa percebeu o tamanho do problema?

NICOLAS COTUGNO – A gente tem um serviço de meteorologia para nos dar uma previsão. É um serviço interno, mas conta com apoio de meteorologista e empresa externa. Nos avisaram: cuidado que à tarde alguma chuva pode vir, e objetivamente, veio um evento extraordinário.

O vento foi absurdo. As medições dão valores diferentes pela cidade, mas foram perto de 104 km/h (quilômetros por hora). Na escala Saffir-Simpson, ventos de 120 km/h são furacões.

A gente ficou de uma a duas horas fazendo um passo a passo para entender o que tinha acontecido em toda a cidade. Contatamos prefeitura, bombeiros, as equipes em campo, e ficou claro que a situação era dramática. Não só no que se refere a rede. Os bombeiros receberam inúmeras demandas.

P – Duas horas não é muito tempo?

NC – Foram duas horas para a gente ter claro quantas eram as falhas por toda a cidade, quando a gente teve o quadro claro de onde o impacto fora mais forte e para onde direcionar prioridades. Considere que a gente já estava trabalhando antes disso. Nossa resposta foi imediata.

Tivemos muita dificuldade para o deslocamento, e o problema maior foram as árvores. Normalmente, num evento crítico, caem de 20 a 30 árvores. Nos piores, 50. Nesse, foram cerca de 1.400 árvores. As linhas de alta tensão, que chamamos de autopistas da rede, que fazem a distribuição da potência pela cidade, estavam funcionando, mas as falhas ficaram distribuídas por diferentes pontos da cidade, algo de difícil recuperação.

P – Quantas árvores caíram na rede elétrica?

NC – De 1.400 [que caíram na cidade], umas mil. Mobilizamos todas as equipes. Ficamos no centro de controle para estabilizar o atendimento. Trabalhamos noite adentro. Temos quase 8 milhões de clientes e, desses, 2,1 milhões foram afetados. Nas primeiras 24 horas, 960 mil clientes tiveram o fornecimento de energia normalizado. Quase 1 milhão. Do evento inicial, até este momento [a entrevista foi concedida entre 18h e 19h de segunda-feira] temos 120 mil sem energia.

P – Mas qual é a dificuldade para restabelecer para esses consumidores?

NC – Essa ventania afetou não apenas as linhas. Tivemos que retirar, recolher e instalar postes. Mobilizar centenas de equipamentos e reconstituir quilômetros de rede. Esse trabalho não é feito por qualquer profissional em curto prazo. E fizemos tudo isso removendo árvores, trabalhando em parceria com bombeiros, com a prefeitura. Intervenções como essas são muito pesadas. Demoram de 10 horas a 14 horas.

Quero lembrar que nas primeiras horas a gente precisa direcionar as intervenções para recuperar serviços vitais. Hospitais, clínicas, famílias que têm aparelhos médicos. No domingo [5], foi preciso garantir o atendimento para mais de 300 escolas que realizavam o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio].

P – A empresa reduziu em 35% o efetivo desde 2019. Faltou gente?

NC – Não, não faltou. De 2019 a hoje, melhoramos o serviço geral na normalidade do dia a dia. A qualidade geral melhorou, e a na emergência também. Em um evento de 2019, com um milhão de pessoas desconectadas, a gente recuperou 650 mil nas primeiras 24 horas. Em 2023, em um evento maior e mais pulverizado, recuperamos quase um milhão.

O número que foi citado [de demissões] é um número geral, onde estão administrativos, todas as pessoas que temos na empresa. Não são pessoas de campo, especialistas. Essa parte da empresa ficou praticamente igual. E temos implantado sistemas de controle, medição inteligente e digital, muitas tecnologias que permitem que os processos sejam mais simples e mais eficientes.

Estamos investindo mais. Antes de 2018, a AES Eletropaulo [antigo nome da empresa, antes da Enel assumir] investia pouco mais de R$ 800 milhões por ano. Em 2022, investimos R$ 1,9 bilhão, e não é qualquer investimento, mas em tecnologia para gerenciar a rede melhor.

P – As pessoas não ficaram só no escuro no sentido físico, também ficaram no aspecto emocional, faziam contato com a Enel e não conseguiam retorno. O que aconteceu com o call center?

NC – Nas primeiras horas, o call center congestionou. A gente restabeleceu. Ontem e hoje, tudo começou a funcionar melhor. Usamos muito o aplicativo da Enel. Às vezes, o cliente não conseguia se comunicar, mas a gente, por aplicativo, recebia e registrava as reclamações.

A gente foi honesto e transparente quando, no sábado [4], na hora do almoço, admitimos que estávamos com problema, mas que iríamos recuperar [até terça-feira]. A previsão foi humilde, consciente e responsável. O pior é dar uma previsão e não atender aquela previsão.

P – Há reiterados alertas de que eventos extremos vão se intensificar daqui para frente. O que pode ser feito tanto pela Enel em São Paulo quanto para o setor para mitigar esses impactos?

NC – A rede de São Paulo é 98% aérea. É uma rede construída de forma econômica, então, foi uma boa decisão. No deserto, esse tipo de rede é segura, mas onde há árvores, com muita chuva e vento, ela fica exposta a danos —e São Paulo é uma cidade verde. Isso é maravilhoso, mas é preciso cuidar das árvores e da rede aérea.

No ano passado, podamos de 350 mil árvores. Esse é um trabalho anual. Mas agora, temos que fazer um debate sobre a mudança climática. Em 2021, faltou água em todo país, agora temos muita água e muito vento.

Agora, é preciso um olhar diferente. Já há discussões sobre possíveis ações, entre elas, enterrar a rede. Mas é uma decisão muito forte, que demanda coordenação, investimentos e tempo. A rede de São Paulo tem mais de 40 mil quilômetros.

P – A empresa sai desse evento com uma imagem muito prejudicada. Como vão reagir a isso?

NC – Entendemos isso, porque muitos de nós foram afetados. Ficamos sem luz em casa. Somos parte do sofrimento. Mas o foco agora é tirar o problema da mesa. Daqui a alguns dias, vemos o dano à empresa.

Chegará um tempo em que se avaliará as dificuldades que nós enfrentamos. Não teve negligência nossa. Não é para nos desculparmos, não. Foi algo excepcional. Quando chega um furacão no Texas, o problema não é a empresa elétrica, é o furacão. Aqui estamos acostumados com eventos menores. Mas, se olharmos de uma forma racional e não emocional, a gente está fazendo um trabalho incrível por um fenômeno pelo qual não tivemos controle.

ALEXA SALOMÃO E NICOLA PAMPLONA / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS