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Migrantes são vítimas de estupro ao cruzarem a ‘selva da morte’ rumo aos EUA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Juntas, mulheres e crianças são pouco menos da metade das pessoas que cruzam o estreito de Darién, a única faixa que liga por terra a América do Sul à Central e que se consolida como o epicentro da crise migratória nas Américas. Mas, invariavelmente, são elas as vítimas preferenciais de crimes sexuais na chamada “selva da morte”.

E esse tipo de violação tem escalado. Relatório da ONG Médicos Sem Fronteiras publicado nesta sexta-feira (17) afirma que o número de casos de violência sexual em Darién que chegam à organização cresce de maneira expressiva neste ano, que também marca o recorde de cruzamentos na floresta de 160 km de comprimento.

De janeiro a novembro, o MSF acompanhou 397 sobreviventes de violência sexual, muitos deles crianças, que cruzaram a selva que divide Colômbia e Panamá. Mas somente um mês, o de outubro, concentrou quase 27% desses casos (107). E, em apenas uma semana, foram 59 atendimentos –sendo que três das vítimas tinham 11, 12 e 16 anos de idade.

Mulheres são 95% das vítimas sobreviventes de abuso sexual que procuram a organização. E os números, reconhece o próprio MSF, são “significativamente subnotificados”, dado que o estigma e o medo de falar sobre o assunto inibe os migrantes de buscarem ajuda ao cruzar a selva e chegar, por água e terra, ao sul panamenho.

Newsletter Lá fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo *** Em depoimentos compartilhados pela organização sem revelar o nome das migrantes, essas mulheres relatam que eram abordadas por grupos de homens, por vezes armados, e espancadas caso não lhes dessem dinheiro. Estupros são uma das principais formas de coerção.

Território de vegetação densa, com montanhas, rios sinuosos e pântanos, o estreito de Darién, descrito por muitos migrantes como a “selva da morte”, tem se tornado um território sem lei.

Os governos de Panamá e Colômbia já admitiram publicamente não terem capacidade de controlar o que se passa na selva, que se tornou morada para a atuação de grupos armados, alguns ligados ao tráfico internacional de drogas, que extorquem e abusam dos migrantes.

Em um dos relatos transcritos pelo MSF, uma migrante venezuelana, que afirma ter cruzado Darién devido à ausência de alternativas econômicas em seu país, sob a ditadura de Nicolás Maduro e assolado pela asfixia econômica, relata múltiplos e coletivos estupros numa travessia que por vezes dura uma semana inteira.

“Como você pode sobreviver a cinco estupros?”, diz ela. “Uma cobra não acaba com sua vida; quem acaba com a sua vida são os homens dentro da selva, que te estupram e te matam.”

Somente neste ano, mais de 458 mil pessoas, vindas da América do Sul, da África e da Ásia, cruzaram o estreito de Darién, de acordo com dados oficiais do governo do Panamá. É como se mais da metade da população de São Bernardo do Campo tivesse cruzado a selva. A cifra é recorde -em todo o ano passado, foram 248 mil cruzamentos.

Mulheres, meninos e meninas representam 47,5% dos migrantes.

Desde o início do ano, chama a atenção de trabalhadores humanitários e autoridades locais o boom no número de crianças na selva. Somente em outubro, quando quase 50 mil pessoas cruzaram Darién, foram 11,2 mil crianças (22,7% do total de cruzamentos daquele mês).

Muitas chegam desnutridas, com muitas picadas de insetos e com traumas, por vezes não verbalizados, de situações às quais assistiram ou às quais foram submetidas na densa floresta.

Ao longo do último mês, mostram os dados, o fluxo de venezuelanos, a principal nacionalidade a cruzar a selva, diminuiu. Os especialistas que acompanham o tema sugerem que o anúncio feito por EUA e Venezuela no início de outubro de que retomariam os voos de deportação a Caracas está diretamente relacionado.

A possibilidade de serem deportados de volta ao país sul-americano pode ter levado cidadãos venezuelanos a congelarem seus planos de cruzar a selva da morte e dali empreender uma rota por toda a América Central e pelo México até chegar à fronteira sul dos EUA –outra área que configura uma das mais perigosas para migrantes nas Américas, onde ao menos 686 migrantes morreram em 2022, segundo a ONU, em especial devido às condições climáticas de áreas desérticas.

MAYARA PAIXÃO / Folhapress

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