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Petroleiras abraçam discurso da transição energética justa e ex-Ibama rebate

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Alvo da pressão por redução das emissões de gases do efeito estufa, o setor de petróleo apropriou o discurso da transição energética e tenta se colocar agora como parte da solução para evitar desequilíbrios no processo de descarbonização da economia.

A estratégia é questionada por ambientalistas, que veem no corte do consumo de combustíveis fósseis a única alternativa para ao menos minimizar os impactos do aquecimento da temperatura da Terra, que já intensifica eventos extremos e ondas de calor em todo o planeta.

O novo discurso das petroleiras foi a tônica de evento promovido pelo setor no fim de setembro no Rio de Janeiro, que contou com a participação de grandes companhias globais, da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e foi alvo de protestos ambientalistas.

Foi lapidado após o início da guerra da Ucrânia, que pressionou o preço da energia e levou governos a desacelerar cronogramas de transição de fósseis para renováveis.

Logo na abertura do evento, o presidente do IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), Roberto Ardenghy, defendeu que o petróleo é capaz de prover energia “segura, disponível e acessível para todos”. Sem ele, continuou, não se atinge uma “evolução energética ordeira e equitativa”.

O secretário-geral do cartel dos exportadores de petróleo, Haitham Al-Ghais, seguiu na mesma linha: “A Opep continua a defender estratégia que apoie todas as energias, para oferecer caminhos estratégicos justos e equilibrados”.

O organização vê crescimento de 24% na demanda por energia até 2050 e diz que o petróleo aumentará sua fatia na matriz energética global, apesar da pressões por redução do consumo.

A defesa de uma “transição energética justa e inclusiva” prosseguiu no discurso da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, para quem a receita do petróleo é fundamental no financiamento da transição energética.

A justiça social no processo de transição energética vem sendo debatida na Europa há anos, mas em um contexto de busca por políticas que evitem que o preço da descarbonização recaia sobre os menos favorecidos.

O setor de petróleo se apropriou do argumento para defender a produção de fósseis. O vice-presidente da ExxonMobil, J. Hunter Ferris, chegou a destacar no Rio de Janeiro que “metade da população mundial está se esforçando para encontrar energia”.

Citou ainda o elevado índice de residências que usam lenha para cozinhar por falta de acesso a gás, o que leva à mortalidade de três milhões de pessoas por poluição dentro de casa por ano. “O mundo depende de nós por produtos de energia confiáveis e acessíveis”, afirmou. “Eu aceito esse desafio”.

Enquanto isso, do lado de fora do evento e em outros pontos da cidade, seu rosto estampava cartazes em um protesto de organizações ambientalistas, que questionava os elevados ganhos de executivos de petroleiras em meio à emergência climática.

“Eles lucram, a gente sofre”, diziam os cartazes, que mostravam ainda a presidente da Petrobras e executivos de outras petroleiras globais, como a também americana Chevron, a norueguesa Equinor e a anglo-holandesa Shell.

De fato, após a guerra da Ucrânia, a remuneração de CEOs de petroleiras disparou. A Exxon, por exemplo, pagou US$ 37 milhões a Darren Woods em 2023, entre salários e bônus. Na Chevron, Michal Phillips ficou com US$ 26 milhões.

Coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, um dos organizadores do protesto, Suely Araújo questiona o novo discurso das petroleiras e argumenta que o mundo não pode esperar “dez ou quinze anos” pela transição energética.

“Os combustíveis fósseis estão na razão de grande parte dos problemas climáticos. Mais de 70% das emissões vêm dos fósseis. Eles estão dizendo: ‘Sou a solução para resolver um problema que eu mesmo estou intensificando’. Não tem lógica”, afirma.

Presidente do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) no governo Dilma Rousseff, ela rebate também argumento da Petrobras e do governo sobre maior sustentabilidade na produção nacional de petróleo, que emite menos CO² e ajudaria a descarbonizar o consumo global.

“Não existe petróleo sustentável. Mais de 80% das emissões são na queima. Por mais que Petrobras seja empresa qualificada, e é, por mais que reduza emissões no processo produtivo, quase a totalidade dos gases vão ser gerados na queima.”

NICOLA PAMPLONA / Folhapress

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