RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Eterna aposta do Nobel, Cartarescu cria alter ego que desiste dos livros

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Mircea Cartarescu é a eterna aposta da Romênia para o Nobel de Literatura. O autor se tornou conhecido em 1977, ao ler seu poema “A Queda”, ainda inédito no Brasil, em um sarau literário.

Nas décadas de 1970 e 1980, estabeleceu sua reputação como poeta e, desde a queda do Muro de Berlim e do fim da censura, como prosador em contos, romances, crônicas. No Brasil, a Mundaréu lançou seu “Nostalgia” em 2018 e, agora, o enciclopédico romance “Solenoide”.

Nesse livro, Cartarescu cria um espelho distorcido de si mesmo ao imaginar uma realidade alternativa em que seu poema “A Queda” foi terrivelmente mal recebido. É na distorção deste momento crucial da vida do próprio Cartarescu que nasce o narrador sem nome de “Solenoide”.

Ao invés de ovacionado, ele é rechaçado por seus pares e desiste para sempre da carreira literária, tornando-se professor do ensino médio. A partir daí, esse alter ego fracassado se compara constantemente ao que sabemos ser a realidade de Cartarescu e a despreza.

“Se meu poema… tivesse sido bem recebido… hoje talvez eu tivesse dez livros com meu nome na capa… [mas] teria esquecido que um livro, para significar algo, deve indicar uma direção.” Para ele, a literatura é “um museu de portas ilusórias”. “Não estou enganando ninguém ao pintar portas que jamais se abrirão”, diz a si mesmo, em palavras de consolo.

Nunca houve na literatura um livro tão antiliterário e que, justamente por isso, ilustra tão bem as potencialidades ainda inexploradas do romance como gênero literário.

“Cabe a um livro exigir uma resposta. […] Li milhares de livros, mas não encontrei um que fosse paisagem e não um mapa. Cada página é achatada, diferente da vida em si. […] Nenhum livro tem sentido se não for um Evangelho. O condenado à morte poderia ter as paredes cobertas de prateleiras repletas de livros… mas ele precisa é de um plano de fuga.”

Todos os grandes romances são cósmicos –eles partem da especificidade das situações cotidianas e abraçam a totalidade da existência– mas cada um vem de um cotidiano diferente.

A primeira coisa que surpreende em “Solenoide” é sua fisicalidade. Ele começa com a frase “peguei piolho de novo” e, em poucas linhas, já acompanhamos esse “Augusto dos Anjos romeno” futucar seu próprio corpo de todas as maneiras possíveis, tirando com a tesoura um inchaço duro do dedão do pé e puxando fios de barbante do próprio umbigo.

Ao lado dos horrores de nossa corporalidade tão individual e úmida, o romance também se serve de um vocabulário lovecraftiano para descrever os horrores cósmicos da morte e da dissolução, com uma importante diferença.

Em Lovecraft, os horrores são distantes e incompreensíveis e, em “Solenoide”, são concretos e próximos –a podridão dentro de nós mesmos, nossa dor, nossa morte.

Em uma entrevista recente, Cartarescu descreve “Solenoide” como metafísico e ético, “um livro vertical, dirigido aos céus”, que ousa articular respostas para algumas das mais antigas e importantes questões da humanidade: de onde vem o mal? Por que nascemos condenados à morte?

E, no fim, em uma época em que o cinismo se transformou na nova ortodoxia, Cartarescu tem a ousadia maior de terminar o romance em uma nota positiva e esperançosa que remete à figura do Bodisatva budista –que a redenção deve ser para todos, que não temos a permissão de nos salvar até que todas as pessoas estejam salvas.

A dificuldade de resenhar “Solenoide” é que simplesmente listar episódios isolados do seu enredo –muitas vezes grotescos como um barbante de umbigo– não transmite o sentido de maravilha desse livro cuja própria leitura parece uma experiência religiosa.

Os episódios precisam de contexto dentro das 800 páginas desse romance para serem significativos. Afinal, o leitor só pode contar com a palavra do resenhista de que, sim, a viagem vale a pena.

Seria desonesto prometer que, no fim, tudo faz sentido, mas não seria exagero afirmar que é uma leitura revolucionária, impactante, transformadora.

Solenoide

Preço: R$ 146 (784 págs.)

Autoria: Mircea Cartarescu

Editora: Mundaréu

Tradução: Fernando Klabin

Avaliação: *Ótimo*

ALEX CASTRO / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS