SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Frans Krajcberg gostava de mato. Nos anos 1980, o artista se embrenhou repetidas vezes por um trecho da floresta amazônica na região do rio Juruena, em Mato Grosso, em busca de seu material de trabalho. De lá, saía com troncos carbonizados pelo fogo ou carcomidos por cupins, galhos chamuscados, cipós retorcidos e cascas de árvore puídas.
Depois deste material da destruição ser transportado para seu sítio e ateliê em Nova Viçosa, no sul da Bahia, o artista o dispunha no chão e analisava os veios dos cipós, para pensar na forma de uma escultura, ou então colocava lado a lado as raízes da palmeira paxiúba, que mais parecem pequenos troncos, até alcançar o desenho de uma obra.
O profundo contato com os biomas do Brasil era o cerne do processo criativo de Krajcberg, nome único no panorama das artes no país na segunda metade do século 20 e nas primeiras duas décadas dos anos 2000 ele morreu em 2017 por fazer obras de estética impactante que denunciavam o extermínio do patrimônio natural para as queimadas e a exploração do homem.
Agora, os quase cem anos de vida do artista e ativista são resgatados em uma biografia de 350 páginas recém-publicada pelas edições Sesc e Edusp, “Frans Krajcberg – a Natureza como Cultura”, escrita pelo ambientalista João Meirelles, um amigo de décadas de Krajcberg a quem o escultor havia encomendado que escrevesse a sua história.
O livro com lançamento no Sesc Pinheiros, em São Paulo, dia 13 de março retrata em minúcias a jornada deste judeu polonês que, depois de sobreviver ao trabalho escravo ao qual foi submetido em um campo de concentração no seu país natal, aportou no Brasil e se tornou figura central das artes plásticas no país e na França, sua segunda casa, onde passava três ou quatro meses todos os anos.
A narrativa, baseada em entrevistas com Krajcberg, com seus amigos e em pesquisas em acervos públicos, é entrecortada por fotos de momentos marcantes da vida do artista. Ao final, um caderno de imagens de algumas de suas esculturas, pinturas e fotografias registram a multiplicidade de sua obra.
Um dos desafios de escrever sobre a vida do artista, conta o biógrafo, é que “ele era um ficcionista”, isto é, inventava histórias quando lhe convinha. Isto deu ao autor a tarefa de checar repetidas vezes os episódios narrados por seu personagem. Krajcberg, por exemplo, disse que, depois de chegar ao Rio de Janeiro, nos anos 1940, passou fome e foi obrigado a dormir na praia, mas na realidade ele foi abrigado pela família de um tio que deu a ele casa e um lugar para pintar.
Meirelles diz encarar como “uma defesa plenamente aceitável” o fato de Krajcberg criar histórias para si diante dos fortes traumas pelos quais ele passou na Segunda Guerra e pelas mudanças forçadas de país. Como um judeu errante, no sentido de alguém que busca seu lugar no mundo, o artista viveu um tempo num campo de refugiados em Stuttgart, na Alemanha, antes de partir para o Brasil, país que dizia amar enquanto renegava com veemência sua Polônia natal.
Abaixo da linha do Equador, o europeu naturalizado brasileiro não tinha dúvidas de qual era seu lugar. “Gosto mais de árvores que de pessoas”, dizia Krajcberg, com seu espírito turrão e português enrolado, depois de ter visto, durante o Holocausto, os horrores que o homem infligia ao próprio homem quase toda a sua família morreu na perseguição aos judeus deflagrada pelos nazistas. “Ele não se importava com mosquito, pernilogo, calor. Virava um moleque, um menino brincando [na natureza]”, conta o biógrafo.
Quando chegou ao Brasil, Krajcberg ficou alguns meses no Rio de Janeiro antes de se mudar para São Paulo e, em poucos anos, se integrar na vida cultural da cidade, um feito para um estrangeiro recém-instalado no país. Sua obra na época era basicamente pintura figurativa, a exemplo da série de telas a óleo sobre samambaias. Mas seu talento já despontava naquela década de 1950, ele participou de quatro bienais de São Paulo, e ganhou o prêmio de melhor pintor na quarta.
Também naqueles anos, o artista trabalhou como engenheiro numa fábrica de celulose no interior do Paraná, onde viu pela primeira vez as queimadas nas florestas que tanto influenciariam a sua obra dali em diante. Décadas mais tarde, quando viajou à porção da Amazônia em Juruena, Krajcberg não foi apenas buscar materiais para as suas esculturas, mas também registrar em imagens a destruição que presenciava e que o abalava profundamente.
“Aquelas queimadas, ele se sentia no meio da [Segunda] guerra. Ele estava armado com uma máquina fotográfica, e o jeito dele se defender era com a fotografia. Ele gritava, falava, esbravejava. Foi muito corporal essa luta”, afirma Meirelles. No livro, o autor associa à paisagem da destruição da mata atlântica e do cerrado às cidades polonesas bombardeadas pelo nazismo, cenários que, embora distintos, ressoavam com o artista.
Na década de 1960, Krajcberg começou a fazer grandes esculturas, tanto com a madeira que sobrava da indústria de celulose do sul da Bahia, próximo a seu sítio em Nova Viçosa, quanto com a madeira residual de queimadas. Suas peças eram pintadas em cores fortes, como o vermelho e o preto, ou deixadas com aspecto natural, como se tivessem acabado de sair da mata. O biógrafo destaca como o trabalho do artista demandava força, porque ele derrubava palmeiras e dobrava cipós, por exemplo, mesmo depois de passar dos 60 anos. “Ele fazia arte com o corpo.”
Embora Krajcberg tenha entrado para a história como representante da arte ecológica e voz internacional contra o desmatamento, no livro o leitor descobre que sua virada para o ativismo foi tardia, só a partir dos anos 1980. Durante décadas, Krajcberg “não era um ambientalista, era só um artista com recursos da natureza”, afirma o biógrafo, acrescentando que ele também não ligava para política nem se importava com a precariedade da situação de vida dos indígenas vizinhos seus em Nova Viçosa.
Independente de seu ativismo, a arte de Krajcberg já era suficiente para tocar o público e os especialistas, argumenta o autor. “Ninguém ficava impune depois de visitar uma obra dele.”
FRANS KRAJCBERG: A NATUREZA COMO CULTURA
Quando Lançamento dia 13 de março, quinta-feira, a partir das 19h30. Bate-papo entre João Meirelles e o jornalista Dal Marcondes, seguido de sessão de autógrafos
Onde Sesc Pinheiros – r. Pais Leme, 195, São Paulo
Preço R$ 122 (376 págs.)
Autoria João Meirelles
Editora Edições Sesc e Edusp
JOÃO PERASSOLO / Folhapress
