(FOLHAPRESS) – Um gato preto perambula solitário por descampados de algum lugar indefinido, entre folhagens e rios, ora buscando comida, ora fugindo da perseguição de cães. De repente, uma enorme inundação põe a flora e a fauna inteiras sob risco.
A sinopse de “Flow” pode ser a de praticamente qualquer genérico de animação protagonizado por animais fofos e quase sempre tagarelas e frenéticos diante dos desafios enfrentados, mas o filme de Gints Zilbalodis desvia das obviedades.
São tantas camadas ao mesmo tempo simples e complexas que, em concisos 84 minutos, fica bastante compreensível o encantamento provocado ao longo de uma trajetória iniciada em maio de 2024, na competição Um Certo Olhar do Festival de Cannes, e que inclui vitória no Globo de Ouro e duas indicações ao Oscar.
De imediato, essa animação da Letônia intriga pela decisão de não conter diálogos falados entre os bichos nem fazer deles animais antropomorfizados. Toda a comunicação é feita na movimentação corporal, nos sons, guinchos, ganidos e miados e nas expressões faciais. Isso faz de “Flow” um amontoado de gestos e delicadezas pinçado nos detalhes mínimos, seja em momentos de conflito ou de apenas amenidades entre os personagens.
Instantes aparentemente sem importância, como a ave que se impacienta com o labrador e joga para longe o brinquedo dele, ou a esforçada pescaria a que o gatinho se desafia para depois oferecer peixes aos companheiros de barco, formam um mosaico de acontecimentos tão ou mais eletrizantes do que cenas de perseguição e perigo.
O estilo rudimentar dos traços animados pelo software aberto Blender e a fotografia nervosa, que explora a profundidade dos espaços, ampliam o efeito emocional. “Flow” parece de fato querer nos inserir em seu mundo, em vez de seduzir por algum tipo de técnica altamente sofisticada.
O que leva a outro aspecto singular de “Flow”. Que mundo é esse que Zilbalodis apresenta? Quando e onde a narrativa se situa? A que tipo de fábula fantástica ele se vincula? Humanos são discretamente insinuados, mas nunca aparecem; monumentos felinos foram erguidos e podem ser vistos além do horizonte; baleias com perninhas saltam em meio à violenta inundação que obriga os animais a se deslocarem. O que aconteceu aqui?
Se tecnicamente as movimentações do gato, do lêmure, da capivara, do cachorro, dos coelhos e da ave de rapina emulam o naturalismo de suas contrapartes reais, nem sempre se pode afirmar o mesmo da atmosfera em “Flow”. O filme transita entre a jornada de destino indefinido através de espaços em colapso e a extrapolação de maiores compromissos de enredo, quando o roteiro de Zilbalodis e Matīss Kaa se permite avançar a momentos de abstração quase experimental.
Ora estamos num universo de entendimento entre as diferenças, mais clichê e de pegada similar à do clássico infantil “Em Busca do Vale Encantado”, de 1988, sobre dinossauros atrás de salvação no período jurássico; ora mergulha-se numa metafísica visual e sonora próxima a “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, que foi Palma de Ouro em Cannes em 2011.
Os dois aspectos se conjugam em harmonia perfeita, mantendo o gato como centro dramático e fazendo com que tudo nos arredores responda ao que acontece a ele.
Toda essa proposta significa também acreditar no poder das imagens e dos sons, que transmitem a infinidade de sentidos e elementos sem apelar a muletas populistas de comunicação direta com o espectador. O título “Flow” fluxo em português é certeiro ao resumir numa única palavra o movimento contínuo e à deriva da ação vista aqui.
Tanto é que o filme prescinde de um desenvolvimento de causa e efeito no deu desenrolar. Ele começa tão abrupto quanto termina, ao usar enquadramentos de natureza similar, mas com significados distintos e complementares, provocados pelo miolo a que Zilbalodis nos permite ver.
A grandiosidade imaginativa de “Flow” e a modéstia de sua elaboração o tornam incontornável no atual cenário mundial da animação.
FLOW
– Avaliação Muito bom
– Onde Em cartaz nos cinemas
– Classificação Livre
– Produção Letônia, 2024
– Direção Gints Zilbalodis
MARCELO MIRANDA / Folhapress
