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Calor pode pressionar a inflação dos alimentos, corte no Plano Safra e o que importa no mercado

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Explico como o calorão pode pressionar a inflação dos alimentos, corte no Plano Safra, Natura quer se livrar da Avon fora da América Latina e outros destaques do mercado nesta sexta-feira (21).

**PLANTINHAS MURCHAS**

O calor extremo que atinge o Brasil é como um picolé de limão: a aparência indica doce, mas o gosto é azedo. Além de exigir muito do nosso corpo, ele pode pressionar (mais) a inflação.

Itens que são sensíveis à variação climática, como produtos de hortifruti, sofrem com temperaturas extremas. Consequentemente, a inflação sobre eles responde de forma mais rápida à redução na oferta.

COMO ASSIM?

“Em locais onde a onda de calor está mais intensa, pelo menos entre o Sul e o Sudeste, pode ser que tenha algum aumento de preços de alimentos in natura”, afirma André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

É normal que os valores de frutas, verduras e legumes aumentem nessa época do ano, mas a inflação pode ser um pouco maior em 2025, devido à intensidade do calor.

O impacto não deve ser duradouro. Uma onda no início do ano, em teoria, não é capaz de elevar os preços pelo resto dele.

Tudo vai depender de quanto tempo o sol vai ficar por aqui. Quanto mais tempo, mais sentirá o bolso do consumidor.

A safra maior de grãos prevista para este ano pode dar alguma folga aos preços, segundo analistas.

O volume previsto para 2025 é 11,1% maior do que o registrado em 2024, para o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

IN VOGA

Outro produto que pode ser afetado pelo clima é o ovo –que aparece nas notícias com frequência nos últimos meses.

As coitadas das galinhas, assim como nós, passam muito calor, o que diminui a produtividade delas.

Menor produtividade pode reduzir a oferta, o que aumenta o preço dos ovos –que já estavam mais altos do que o padrão, por sinal.

O fenômeno, segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), é sazonal, já que pessoas trocam a carne vermelha por outras formas de proteína na quaresma.

A gente detalhou melhor isso na edição de segunda-feira da newsletter, que você pode ler aqui.

Os mais prejudicados são aqueles que estão na fatia mais pobre da população. Proporcionalmente, eles destinam uma parte maior da sua renda à alimentação básica.

**CORTE SURPRESA NO PLANO SAFRA**

O Tesouro Nacional suspende, a partir de hoje, a concessão de novos financiamentos com subvenção federal nas linhas de crédito do Plano Safra.

A decisão foi anunciada nesta quinta-feira (20). A justificativa dada pelo governo é a alta da taxa de juros, que encarece o crédito.

Com a aprovação da LOA (Lei Orçamentária Anual), haverá a liberação de mais dinheiro para os financiamentos, que devem ser retomados.

A LOA devia ter sido debatida no Legislativo em dezembro, mas a expectativa é que ela só entre em vigor depois do Carnaval.

O PLANO

O Safra oferece linhas de crédito para produtores rurais. O dinheiro ajuda com os primeiros processos, que serão pagos quando a produção for vendida.

Ele é estipulado sobre o ano safra, que mais ou menos acompanha o ciclo das culturas. Normalmente, começa em julho e termina no próximo mês de junho.

Antes do novo ciclo, o governo anuncia quanto do seu orçamento será destinado ao fomento do programa.

O governo paga uma parte do financiamento oferecido por instituições credenciadas, o que deixa crédito mais barato. Existem alguns programas diferentes, baseados no patamar de renda dos produtores. São eles:

– Pronaf: para a agricultura familiar;

– Pronamp: para médios produtores;

– Renovagro: para o financiar a conversão para uma agricultura mais sustentável.

SEMPRE ELA

A Selic em 13,25% ao ano (e subindo) deixou a concessão de crédito mais cara. Por isso, manter as subvenções ficou mais difícil.

Os custos de empréstimo dos bancos ficam mais altos, o que acaba aumentando a diferença que o dinheiro público tem que cobrir para possibilitar as linhas.

Não ajuda o fato de o plano ter sido desenhado ainda quando as taxas de juros estavam em queda em 2024 –as expectativas para o agora eram bem diferentes.

EXCEÇÃO

O Pronaf, que disponibiliza crédito para agricultores familiares, foi o único que escapou da suspensão. O público atingido por ele é o mais vulnerável à flutuação dos preços.

**DEIXANDO O MUNDO PARA TRÁS**

A Natura&Co divulgou que está discutindo a venda das operações da Avon fora da América Latina com a gestora IG4.

A possibilidade não é nova. Em dezembro de 2024, a holding já havia levantado a ideia. Naquele momento, a Avon Products passava por uma recuperação judicial nos Estados Unidos, onde foi aprovado um acordo global de compra e venda de ativos.

A compra da holding foi anunciada em 2019 e foi concluída no começo de 2020.

Os problemas da Avon ganharam forma em agosto de 2024, quando pediram a reestruturação na corte americana. As dívidas estimadas, na época, eram de US$ 1 bilhão (R$ 5,71 bilhões) –o mercado especulava que os débitos poderiam ser ainda maiores.

A Natura se comprometeu a dar um financiamento de US$ 43 milhões (R$ 245,5 milhões) e a oferecer US$ 125 milhões (R$ 713,7) para adquirir as operações da marca americana fora dos EUA.

Na época, a brasileira disse “continuar acreditando no potencial da marca” e que as ações da Avon fora do território americano não foram incluídas no processo. Por isso, nenhum impacto era esperado fora dali.

Mas a própria Natura não estava na situação mais confortável. O balanço do segundo trimestre de 2024 apontou um prejuízo líquido de R$ 859 milhões, aumento de 17,4% do que já havia sido registrado no mesmo período do ano anterior.

↳ A holding brasileira citou a reestruturação da Avon como o principal motivo para o resultado desagradavável. Não fosse isso, teria um lucro de R$ 162 milhões, segundo ela.

E agora? A Natura&Co está se reestruturando desde que sua estratégia de expansão e internacionalização não deu tão certo assim. A ideia agora é concentrar as operações mais perto de casa.

Em 2023, vendeu a britânica The Body Shop para uma gestora alemã por um quinto do valor que pagou pela compra seis anos antes;

No mesmo ano, vendeu a Aesop para a L’Oréal por US$ 2,8 bilhões (R$ 16 bilhões).

**PARA LER**

Mais do que nunca, as grandes empresas de tecnologia estão no poder –não só do seu tempo, dos seus gostos e das suas relações, mas também no âmbito oficial. A foto dos CEOs enfileirados na posse de Donald Trump da presidência americana não mente.

É difícil fazer sentido da realidade sem uma ajudinha, e estamos aqui para isso. Na indicação da semana, um livro-reportagem que conta como as big techs passaram de novidades promissoras a grandes problemas.

Em “A Máquina do Caos”, o jornalista Max Fisher reúne o que investigou enquanto trabalhava para The New York Times e The Atlantic e delineia o processo que transformou pequenos projetos amadores no que hoje chamamos de big techs.

Ainda, discute por que a extrema direita é beneficiária natural dos algoritmos e como elas poderiam ser reguladas pela lei.

**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**

Você piscou e o Milei se livrou da investigação judicial do criptogate.

Passo maior que a perna? Lula promete “maior política de crédito já feita” para atacadistas, em mais um esforço para segurar o preço dos alimentos.

Emergência em Nova York. Ações do Nubank afundam na NYSE depois de a empresa divulgar um balanço decepcionante para investidores.

O povo clama pelo home office. Campanha contra o presencial na Petrobras ganha música de protesto e memes mil.

LUANA FRANZÃO / Folhapress

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