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Cracolândias se avolumam no centro de SP enquanto ponto principal perde frequentadores

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A redução na frequência de usuários de drogas na rua dos Protestantes, única via monitorada diuturnamente pela prefeitura com uso de drones, guardas-civis e um painel virtual, é acompanhada pelo crescimento do volume de pessoas em outras aglomerações de uso de crack pelo centro de São Paulo, segundo moradores, comerciantes e presidentes de Consegs (conselhos comunitários de segurança).

Passar por vias importantes de Luz, Santa Cecília, Consolação, Bom Retiro e Campos Elíseos é ter a certeza de se deparar com dependentes químicos com cachimbos nas mãos e por vezes fumando crack em meio à circulação de pedestres e veículos.

Em 2024, a média mensal na rua dos Protestantes, que chegou a ultrapassar 500 pessoas por dia, caiu para perto de 100 no fim do ano. Para o prefeito Ricardo Nunes (MDB), a situação no local está mais controlada, e a cracolândia “é um negocinho desse tamanhozinho”, como declarou em entrevista na semana passada.

A prefeitura afirma que a redução “deve-se ao aprimoramento das abordagens e encaminhamentos feitos pelas equipes de Saúde e Assistência Social, à ampliação das ações de Segurança Pública com o uso de câmeras e tecnologia e a estratégias para evitar que novas pessoas retornem à CAU [Cena Aberta de Uso]”.

Uma das cracolândias com aumento de frequentadores mais perceptível está sob a praça Roosevelt. No viaduto que liga a rua Augusta ao elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, homens e mulheres fumam crack a qualquer hora do dia. À noite, quando o tráfego é fechado para carros, a quantidade de pessoas cresce, assim como aos sábados e domingos.

Em alguns momentos é possível contar cerca de 50 usuários. Eles atravessam de um lado para o outro da via, obrigando motoristas a frear repentinamente. No dia 3 de janeiro, uma mulher em situação de rua morreu ao ser atropelada no local.

“Sou presidente do Conseg. Imagina se não notei [o aumento da concentração]. E fácil falar que a cracolândia está controlada, e tem mais uma que ninguém vê”, diz Marta Campoamor Regairás, que chefia o conselho comunitário de segurança da Consolação.

Segundo ela, a PM é a única a atuar na região, enquanto a prefeitura dá de ombros para a situação, ignorando diversos ofícios já encaminhados. Regairás classifica como uma negligência do prefeito o que ocorre sob o viaduto, com roubos, furtos e ataques a motoristas em momentos de gargalos no trânsito.

A visão dela é corroborada por quem vive no entorno há muitos anos. “Formou se uma minicracolândia na entrada do elevado. A PM vira e mexe faz apreensões lá. Mas não adianta nada, já que os usuários não podem ser internados compulsoriamente. Encontram facas, tesouras e drogas”, relata o comerciante Edney Vassalo, 50, nascido no bairro.

“Isso prejudica o comércio. As pessoas sentem-se inseguras de andar na região”, acrescenta.

A cerca de 5 km da Consolação, uma outra cracolândia, às margens da avenida do Estado, é motivo de críticas de moradores e do Conseg Bom Retiro. Segundo Saul Nahmias, presidente do conselho, houve aumento na quantidade de queixas sobre o problema no bairro, principalmente no entorno da praça Miguel Fortes e ao final da rua Newton Prado.

O Bom Retiro chegou a ser escolhido pelas gestões Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Nunes como a área para alocar a cracolândia. Na noite de 8 de julho de 2023, uma grande operação tentou deslocar os usuários da rua dos Protestantes para um ponto escuro sob a ponte Governador Orestes Quércia, também conhecida como Estaiadinha, na marginal Tietê. A ideia naufragou horas depois, quando os dependentes retornaram para o lugar de origem.

Na época, moradores e comerciantes do Bom Retiro se juntaram e foram às ruas em manifestações contra a iniciativa. Dias depois, Tarcísio recuou da transferência.

Uma professora que mora no bairro tem mapeado as andanças de usuários. Ela listou sete ruas para a reportagem como pontos de concentração para o consumo de drogas. Também registra em fotos o uso de crack, as barracas montadas e o lixo espalhado. De acordo com ela, o uso de entorpecente é fomentado pelo dinheiro que conseguem através de vendas em ferros-velhos próximos.

Outro ponto onde há aglomeração está na altura da praça Marechal Deodoro —também sob o Minhocão. Barracas espalhadas pelo canteiro central, onde um dia já foi uma área verde, servem de camuflagem para o uso da droga. Ali também foi montando uma “filial do shopping da cracolândia”, onde é possível comprar cachimbos expostos sobre caixas de papelão ou caixotes à luz do dia.

Famílias de moradores de rua com crianças que também vivem na área se mantêm afastadas dos dependentes químicos e ficam num trecho escondido, mais perto da estação de metrô.

Há ainda concentração significativa de usuários no entorno do Shopping D, no Canindé.

Segundo a prefeitura, “nos locais mencionados pela reportagem, a Guarda Civil Metropolitana realiza rondas diárias e presta apoio aos serviços de zeladoria e às equipes de assistência social”. Ainda conforme a gestão Nunes, todas as demandas recebidas do Conseg são encaminhadas aos órgãos municipais competentes para análise e ações coordenadas entre as pastas.

Já a SSP (Secretaria da Segurança Pública), do governo estadual, afirma que a Polícia Militar atua no combate ao tráfico de drogas e na redução das cenas abertas de uso na região central, em um trabalho integrado a outros órgãos, com foco especial na rua dos Protestantes.

“Como resultado dos esforços empreendidos, de abril de 2023 até novembro de 2024, o centro apresentou 20 meses de queda consecutiva nos índices de roubos e furtos, permitindo que 25,4 mil crimes desta natureza fossem evitados”, diz a pasta da gestão Tarcísio.

Desde o ano passado até o início deste ano, 18,6 mil objetos perfurocortantes e simulacros foram apreendidos na região, completa a pasta de segurança.

PAULO EDUARDO DIAS / Folhapress

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