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Emprego bem acima do previsto aumenta temor do mercado de alta da inflação e dólar encosta em R$ 5,80

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar abriu em leve queda nesta quarta-feira (26), mas inverteu o sinal e passou a subir após a notícia de que o Brasil abriu 137,3 mil vagas formais de trabalho em janeiro, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgados pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego). Às 14h58, a divisa dos EUA subia 0,60%, cotada a R$ 5,787. Na máxima da sessão, atingiu R$ 5,805.

O resultado do Caged veio bem acima das 48 mil vagas esperadas por economistas, segundo pesquisa da agência de notícias Reuters. O mercado financeiro vê os dados com pessimismo, uma vez que podem significar um descontrole dos salários e dos preços, e um aumento da inflação e a permanência dos juros em patamares elevados, na avaliação de investidores.

Já a Bolsa caía 0,74%, aos 125.043 pontos, no mesmo horário, em meio à repercussão de uma bateria de resultados corporativos.

As taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DIs) abriram a quarta-feira em alta e mantiveram o movimento, na contramão do exterior, após a divulgação dos dados de emprego. A taxa do DI para janeiro de 2026 estava em 14,72%, em alta de 13 pontos-base ante o ajuste de 14,588% da véspera, enquanto a taxa do vencimento para janeiro de 2033 estava em 14,75%, com elevação de 20 pontos-base ante 14,547%.

O resultado de vagas criadas no país no mês passado foi fruto de 2,271 milhões de admissões e 2,134 milhões de desligamentos.

O saldo de janeiro de 2025 foi menor do que o registrado em janeiro de 2024, quando foram criados 180,3 mil postos de trabalho.

Na segunda-feira (24), o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, já havia antecipado que o dado superaria os 100 mil vagas.

“Saiba que o Caged de janeiro vem com mais de 100 mil empregos criados no mês de janeiro deste ano, começando o ano gerando empregos de qualidade e vamos repetir no ano inteiro”, disse Marinho em um evento sobre a ampliação da frota da Petrobras e Transpetro.

Os dados sustentam uma percepção por parte do mercado de que pode haver um descontrole dos preços no país, o que pode pressionar a inflação e os juros.

Isso porque um mercado de trabalho mais forte significa aumento de consumo, o que deve aumentar os preços. Com preços mais resilientes, o Banco Central pode ter que subir mais, e por mais tempo, a taxa básica de juros (Selic), atualmente a 13,25%, para controlar a inflação. A próxima reunião será em maio.

Quando a inflação sobe, o poder de compra da moeda local diminui, e isso pode gerar incertezas econômicas. Investidores tendem a buscar ativos mais seguros, como o dólar, o que aumenta a demanda pela moeda americana e, consequentemente, seu valor.

“Fica mais difícil imaginar como o Banco Central vai conseguir controlar a inflação e acredito que talvez só aumentando a taxa de juros não seja suficiente também”, diz Alison Correia, analista de investimentos e co-fundador da Dom Investimentos.

Embora juros mais altos possam atrair investimentos estrangeiros, o que ajudaria a valorizar o real, se o mercado entender que a inflação está descontrolada ou que há riscos fiscais, o efeito pode ser o contrário, levando à desvalorização do real e à alta do dólar.

A perspectiva de uma inflação mais alta veio destacada no boletim Focus divulgado na última segunda-feira (24). Analistas consultados pelo Banco Central passaram a ver uma inflação mais alta para 2025 e 2026 pela 19ª semana consecutiva.

A expectativa é de que a inflação suba do patamar de 5,60% para 5,65% ao fim deste ano, e de 4,35% para 4,40%, no próximo ano.

O IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15), que é uma prévia da inflação, acelerou a 1,23% em fevereiro, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgados nesta terça-feira (26).

É o maior valor para o período desde 2016 e acumula alta de 4,96% em 12 meses, bem abaixo dos 5,10% esperados pelo mercado, mas bem acima do centro da meta perseguida pelo BC de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Entre os fatores que podem pressionar a inflação está a liberação de R$ 12 bilhões do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) de quem foi demitido e não conseguiu acessar os recursos na rescisão por ter optado pelo saque-aniversário, como noticiado pela Folha de S.Paulo.

A medida colocaria mais renda à disposição da população, o que também aumentaria o consumo, podendo aumentar os preços e pressionar a inflação -consequentemente, pressionando a decisão do BC sobre os juros.

Além disso, o MEC (Ministério da Educação) começou a pagar nesta terça-feira os incentivos do programa Pé-de-Meia aos alunos que concluíram o ensino médio em 2024 nas modalidades regular e EJA (Educação de Jovens e Adultos).

São R$ 1.000 pela aprovação no 3º e 4º ano e mais R$ 200 referentes à participação no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), totalizando R$ 1.200 para esses grupos.

O mercado ainda tem demonstrado um ceticismo com o governo. Em meio a queda de popularidade de Lula, os investidores temem que o presidente possa se distanciar do compromisso fiscal e ampliar gastos para atrair uma avaliação mais positiva.

Os temores dos agentes em relação às medidas fiscais eleveram o dólar ao patamar histórico de R$ 6,267 no fim do ano passado.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira reforça a série de más notícias envolvendo a avaliação de governo e a projeção de Lula (PT) para as eleições de 2026.

“A queda de popularidade do governo pode ser um propulsor de mais gastos relacionados a benefícios sociais. Essa é a leitura do mercado. E aí, naturalmente, vem mais receio em relação ao fiscal”, diz Fernando Bergallo, diretor de operações da FB Capital.

Além disso, a baixa popularidade do presidente reduz suas chances de reeleição em 2026, o que agrada aos investidores por potencialmente diminuir os riscos fiscais no médio prazo e significar uma renovação nos rumos econômicos do país.

O dólar abriu a sessão de terça em alta e chegou a subir cerca de 0,80% pela manhã, quando bateu os R$ 5,813, na máxima do dia. No entanto, passou a reduzir ganhos após o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dizer que a agenda fiscal do governo brasileiro não pode perder o ímpeto e que as reformas serão retomadas.

Haddad disse que o governo tem condições de melhorar as contas públicas, mas ponderou que não pode “só fixar nisso”.

“O comando do presidente é arrumar as contas, mas não podemos de novo fazer o ajuste recair na parte mais fraca da sociedade”, disse durante evento do BTG Pactual, em São Paulo.

Por volta das 15h, a divisa dos EUA inverteu o sinal e passou a ter queda leve, em linha com o exterior, depois de uma pesquisa apontar a maior queda de confiança do consumidor americano em três anos e meio. Nas mínimas da sessão, foi cotada a R$ 5,743.

Diante da pesquisa, investidores passaram a ver maiores chances de corte de juros pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano), o que enfraquece a divisa americana em relação às moedas globais e alivia a cotação do dólar por aqui.

Já na ponta internacional, o foco está em torno de novos comentários do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre seus planos tarifários.

Na terça-feira, Trump ordenou uma investigação sobre possíveis novas tarifas em importações de cobre, para reconstruir a produção norte-americana do metal.

O cobre é usado em veículos elétricos, equipamentos militares, redes de energia e bens de consumo.

Na segunda-feira, Trump afirmou que a negociação com Canadá e México segue “o (calendário) programado” com a data de 4 de março sendo mantida para ser alcançada uma solução sobre o combate à migração irregular e ao tráfico de fentanil. Caso contrário, os EUA prometem impor uma taxa de 25% sobre os produtos vindos dos dois países.

O mercado também segue monitorando as negociações para um acordo pelo fim da Guerra da Ucrânia entre o presidente americano e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

VITOR HUGO BATISTA / Folhapress

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