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Walter Salles conta bastidores de ‘Ainda Estou Aqui’ em evento na França

DREUX, FRANÇA (FOLHAPRESS) – Ao chegar a Dreux, cidadezinha de 50 mil habitantes a 80 km de Paris, Walter Salles esperava encontrar um pequeno cinema de interior. Espantou-se ao se deparar com um multiplex de nove salas. A maior delas, com 400 lugares, exibiria dali a poucos minutos “Ainda Estou Aqui”. “É um prazer ver uma sala de cinema cheia”, disse.

A presença de Salles na pequenina Dreux foi o momento culminante do festival Regards d’Ailleurs (“Olhares de Fora”) deste ano. Depois da projeção do filme ganhador do Oscar de melhor filme internacional, o diretor brasileiro respondeu durante meia hora às perguntas da plateia, explicando para os franceses uma realidade às vezes incompreensível para eles.

Um burburinho de surpresa percorreu a sala quando Salles “revelou” que a Eunice Paiva idosa é interpretada pela mãe da atriz principal. “Em alguns países, as pessoas disseram: ‘Que trabalho extraordinário de maquiagem!'”, acrescentou, para risos da plateia. “Fernanda Torres, que tem um humor mordaz, diz que eu a traí com Fernanda Montenegro fazendo ‘Central do Brasil’. Agora foi a oportunidade de reuni-las.”

Os franceses queriam saber mais sobre a ditadura no Brasil. Um espectador perguntou como outras camadas da população viveram a repressão, porque o filme mostra “um meio intelectual branco”.

“Evidentemente, o estrato social que vemos [no filme] é a alta burguesia, onde justamente se acha que essas coisas não acontecem”, respondeu Salles. “O cinema tem que ser polifônico. Em um país tão grande quanto o Brasil, você vai ter cem reflexões diferentes. Um grande cineasta brasileiro, Kleber Mendonça Filho, está terminando um filme [“O Agente Secreto”, protagonizado por Wagner Moura] sobre exatamente esse período, em Pernambuco.”

Outro espectador, depois de qualificar o filme como “deslumbrante”, ressalvou: “Tenho vontade de fazer quase uma crítica. Em tudo o que se disse sobre a ditadura e seus abusos, foram mostrados os subalternos. Ninguém sobe até o topo da cadeia. Vamos ter que esperar que um Costa-Gavras faça um filme sobre o que aconteceu no seu país?”, perguntou, referindo-se ao cineasta grego notório pelos filmes engajados.

“Costa-Gavras já fez, sobre vários países do continente”, lembrou Salles, citando “Missing” e “Estado de Sítio”, que tratam, respectivamente, do Chile e do Uruguai. “E o documentário se presta a fazer exatamente o que você traz à tona. O cinema é um leque de possibilidades.”

Salles explicou ao mesmo espectador que os silêncios de “Ainda Estou Aqui” também cumprem um papel. “Um monte de pessoas ‘completou’ o filme no Brasil. As pessoas começaram a contar a história de suas famílias nas redes sociais. O que é maravilhoso é que um filme só fica pronto quando é confrontado ao olhar dos outros.”

Em sua 22ª edição, o festival de Dreux homenageia a cada ano o cinema de um país. Este ano, o escolhido foi o Brasil, coincidentemente no ano em que o país conquistou pela primeira vez o Oscar de melhor filme internacional.

Até poucos dias atrás, o organizador do festival, o francês Thierry Méranger, crítico da revista “Cahiers du Cinéma”, temeu que Salles não pudesse vir à França, devido à agenda lotada. Quando o convite foi feito, no ano passado, “Ainda Estou Aqui” nem havia estreado, e a badalação do Oscar estava longe.

Mas Salles fez questão de prestigiar o amigo de duas décadas. “Quando [Méranger] me chamou, eu estava no comecinho da mixagem do filme, me falou do festival e me deu vontade. Estou feliz de estar nesta cidade encantadora”, contou o brasileiro. “Nós sabíamos que você ia cumprir sua promessa”, disse Méranger ao apresentar Salles à plateia.

Antes da projeção, o diretor ficou encantado com um clipe exibido na tela, com cenas clássicas do cinema brasileiro, de “Limite”, de Mário Peixoto (1931), a “Ainda Estou Aqui”.

Salles cobriu particularmente de elogios Glauber Rocha e o Cinema Novo. “Estou muito tocado por terem escolhido esses filmes. E muito emocionado por ver incluído o filho dele, Eryk”. O documentário “A Queda do Céu”, dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, também foi exibido no festival de Dreux.

O diretor deve ficar em Dreux até sábado, quando dará uma “masterclass” sobre seu processo criativo para estudantes franceses.

ANDRÉ FONTENELLE / Folhapress

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