SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os Estados Unidos voltaram a vetar, nesta quarta-feira (4), uma resolução do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) pedindo um cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza.
O país, um dos cinco integrantes do órgão com poder de veto, foi o único de todos os 15 membros a votar contra o documento. A resolução foi proposta pelos dez integrantes não permanentes do conselho.
Além de um “cessar-fogo imediato, total e permanente”, o texto exigia a libertação incondicional dos reféns israelenses que foram capturados no ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel e que ainda são mantidos em cativeiros na Faixa de Gaza.
A resolução também pedia o fim “das restrições à entrada de ajuda humanitária” no território palestino diante de uma “catastrófica situação humanitária”.
“Os Estados Unidos têm sido claros de que não apoiaríamos qualquer medida que não condene o Hamas e não exija que o Hamas deixe Gaza”, disse a embaixadora americana Dorothy Shea em seu discurso antes da votação. Ela chamou a proposta de inaceitável.
“Esta resolução prejudicaria os esforços diplomáticos para alcançar um cessar-fogo que reflita as realidades locais, o que encorajaria o Hamas.” A embaixadora também afirmou que o posicionamento de Washington “não seria uma surpresa para ninguém”.
Trata-se do primeiro veto de uma resolução de cessar-fogo para Gaza durante o governo de Donald Trump. Até então, a última iniciativa do tipo havia ocorrido em novembro passado, quando Washington barrou proposta com a justificativa de que seus pares estavam rejeitando as tentativas de alcançar um meio-termo.
Diferenças entre os membros permanentes do Conselho de Segurança têm dificultado a atuação do órgão, o mais poderoso da ONU, não só no conflito em Gaza como também na guerra da Ucrânia. Queixas sobre a sua paralisação são frequentes entre os seus membros
O veto desta quarta motivou protestos dos demais integrantes do conselho. Asim Iftikhar Ahmad, embaixador do Paquistão, um dos membros não permanentes do órgão, disse que a decisão “dá luz verde para o extermínio” da população de Gaza e constitui uma “mancha moral” para a ONU.
Amar Bendjama, embaixador da Argélia, também membro rotativo, fez coro ao paquistanês ao criticar as ofensivas em Gaza. “O silêncio não pode defender os mortos, não pode amparar as mãos dos que morrem, não pode enfrentar o funcionamento da injustiça”, disse.
França e Reino Unido também lamentaram o resultado da votação, e o embaixador chinês, Fu Cong, fez críticas diretas aos EUA, dizendo que Washington tem de “abandonar os cálculos políticos e adotar uma postura justa e responsável”.
O Hamas também criticou o veto, descrevendo-o como uma demonstração do “preconceito cego do governo americano” em relação a Israel.
Além de EUA, China, França, Reino Unido e Rússia são membros permanentes do Conselho de Segurança. As vagas rotativas do órgão atualmente são ocupadas por Serra Leoa, Argélia, Coreia do Sul, Eslovênia e Guiana, cujos mandatos expiram no fim deste ano; e Somália, Paquistão, Panamá, Dinamarca e Grécia, que continuam no conselho até o término do ano que vem.
A votação no conselho ocorreu enquanto Israel avança com ofensivas em Gaza iniciadas em março, após o fim de uma trégua de dois meses. O Ministério da Saúde do território palestino, controlado pelo Hamas, disse que os ataques mataram 45 pessoas nesta quarta -no total, mais de 54 mil pessoas morreram na região em todo o conflito. Israel, por sua vez, anunciou a morte de um soldado em combate.
Também nesta quarta a embaixadora britânica na ONU, Barbara Woodward, criticou as decisões do governo israelense de expandir suas operações militares em Gaza e “restringir severamente a ajuda humanitária”, medidas descritas por ela como “injustificáveis, desproporcionais e contraproducentes”.
Em 2 de março, o governo de Binyamin Netanyahu bloqueou a entrada de alimentos e medicamentos para os 2,3 milhões de residentes em Gaza. Após uma suspensão total da ajuda humanitária por 78 dias, o premiê israelense flexibilizou a entrada de mantimentos diante da crescente pressão internacional.
O veto de Washington, aliado histórico de Israel, ocorre ainda durante uma retomada caótica da distribuição de ajuda humanitária feita por meio da controversa Fundação Humanitária de Gaza (FHG), apoiada por Israel e pelos EUA.
Na terça-feira (3), pelo menos 27 pessoas morreram após soldados do Exército de Israel abrirem fogo perto de um local de distribuição de ajuda humanitária no sul da Faixa de Gaza, de acordo com a Cruz Vermelha. Tel Aviv falou em “tiros de advertência”. Nesta quarta a distribuição de auxílio foi paralisada novamente.
Israel vem rejeitando apelos por um cessar-fogo, afirmando que o Hamas não pode permanecer em Gaza.
A FGH disse que pediu ao Exército israelense para “orientar o tráfego de pedestres de forma a minimizar confusão ou riscos de escalada” perto de postos militares. “Nossa principal prioridade continua sendo garantir a segurança e dignidade dos civis que recebem ajuda”, afirmou um porta-voz da fundação.
O novo processo de distribuição de ajuda para a população de Gaza a partir de apenas três locais foi lançado em meio a uma nova ofensiva encabeçada por Israel desde o final do mês passado. A ONU e outros grupos que atuam na região dizem que o modelo, que utiliza trabalhadores privados de segurança e logística dos EUA, militariza a ajuda.
Antes da votação do Conselho de Segurança, o chefe de ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas, Tom Fletcher, pediu que Israel permita que a ajuda chegue às pessoas em Gaza.
“Abram as passagens -todas elas. Deixem entrar ajuda de todas as direções. Suspendam as restrições. Garantam que nossos comboios não sejam retidos por atrasos e negações”, disse Fletcher em nota.
Especialistas dizem que toda a população de Gaza está em risco de fome. A recém-criada GHF disse na terça que distribuiu mais de 7 milhões de refeições desde que iniciou suas operações há uma semana.
A organização anunciou na terça-feira (3) um novo diretor, ligado ao presidente dos EUA, Donald Trump, após o anterior renunciar, argumentando que não conseguiria exercer sua função com independência.
Evangélico, o reverendo Johnnie Moore é definido pela FGH como “um defensor internacionalmente reconhecido da paz, liberdade religiosa e dignidade humana duas vezes indicado pelo presidente Donald Trump para servir como comissário da Comissão Americana pela Liberdade Religiosa Internacional”.
Redação / Folhapress
