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Aos 60 anos de carreira, Duo Assad ainda é assombroso de se ver

FOLHAPRESS – Em certo ponto da melodia do “Choros nº 5” de Villa-Lobos, uma nota fá, tocada na primeira corda do violão, é repetida logo a seguir na segunda corda. Essa mudança sutil de “cor sonora” seria impossível no piano, o instrumento original para o qual a peça foi concebida.

Nada se perde do fraseado amplo e da ginga malemolente concebidos pelo compositor. Ao contrário, novos sentidos são adicionados. Comemorando 60 anos de uma carreira iniciada na infância no interior de São Paulo, os irmãos Sérgio e Odair Assad voltaram a tocar em São Paulo após um intervalo longo. O recital, na sala principal do Teatro Cultura Artística, é parte de uma grande turnê mundial.

O repertório apresentado na noite parece ter sido todo concebido por Sérgio Assad, seja em composições autorais, seja em arranjos de obras Radamés Gnattali, Egberto Gismonti, Villa-Lobos, e do argentino Astor Piazzolla, o único não brasileiro.

Assad é hoje, ao lado do cubano Leo Brouwer, o mais importante compositor para violão em atividade e, provavelmente, o compositor brasileiro vivo —e aqui incluímos a nossa música clássica ou erudita— de maior força internacional, com obras encomendadas e gravadas pelos principais solistas, grupos de câmara e instituições de ensino de violão em todos os continentes.

Não é possível, entretanto, separar essa concepção de composição e arranjo da essência performática da dupla Assad. O que os irmãos construíram ao longo de seis décadas renova tanto a música de câmara eminentemente erudita como a popular instrumental, e está além de rótulos como “crossover”, “nacionalismos musicais”, “fusion” ou mesmo “música do mundo” e “música sem fronteiras”.

É, de fato, a realização manifesta de uma música deslizante, na qual todos os parâmetros musicais estão em movimento contínuo de transformação: velocidade, equalização, timbre, acentos, articulação e harmonia são subsumidas por um conceito fraseológico radical, amparado por um senso rítmico integrado que tangencia o inexplicável.

Não se trata, portanto, apenas de uma música centrada em um processo de escritura com influências populares, nem vice-versa, mas de uma nova síntese, onde a corporeidade que só o pop tem nesse grau recebe a especulatividade cerebral do contraponto escrito e de uma unidade formal estruturada, em sonoridade trabalhada com extremo polimento. Nada disso existia —ao menos não desse jeito— antes dos Assad.

A aura harmônica —e aqui, enfim, adentramos ao gosto pessoal dos músicos— é predominantemente impressionista. Na primeira parte, Piazzolla e o gaúcho Radamés Gnattali puderam ser ouvidos como precursores das assadianas “Três Cenas Brasileiras” e “One Week in Rio”.

Na segunda parte, além de Villa-Lobos, duas outras composições de Sérgio puderam ser vistas ao lado de seus já famosos arranjos para “Palhaço” e “Baião Malandro”, de Gismonti, um dos momentos mais aplaudidos da noite.

“Dyens em Trois Temps” coloca toda beleza possível a serviço de uma homenagem ao violonista tunisiano-francês Roland Dyens (1955-2016), amalgamando canções americanas e francesas até elevar a um grau máximo de transcendência a peça “Tango en Skaï”, talvez a mais célebre do homenageado.

Às vezes parece que apenas ver Odair Assad em cena já seria suficiente para se imaginar com precisão o som que ele tira do violão. Ele é a mais completa tradução do que pode ser a relação de um músico com o seu instrumento.

Mesmo a supervirtuosa pianista chinesa Yuja Wang, que tocou no mesmo palco há uma semana, enfrenta seu instrumento. Odair não: parece um menino brincando, mas ao mesmo tempo fazendo o que jamais um adulto poderia fazer. A delicada melodia acompanhada “Menino”, aliás, foi o bis da noite.

Frases rapidíssimas, acompanhamentos suingados, harmônicos artificiais e percussão capaz de evocar um legítimo zarb persa, como em “Tahhiyya li Ossoulina”, premiada obra de Assad que fechou o programa, fazem com que a música deslizante do Duo Assad seja, ainda hoje, assombrosa de se ver.

DUO ASSAD NO TEATRO CULTURA ARTÍSTICA

– Avaliação Muito bom

SIDNEY MOLINA / Folhapress

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