Morrer, para Jaguar, deve ter sido um estorvo. Não porque ele tivesse medo da morte; essa senhora sisuda, careta, que não entende piada nenhuma, mas porque deve estar furioso de não poder transformar o próprio fim em charge. Se pudesse, já teria rabiscado um hospital de portas giratórias, um médico atrapalhado com a prancheta, e ele mesmo fugindo da maca para pedir mais uma cerveja no bar da esquina. E embaixo, aquela legenda típica: “Desculpem o atraso, morri.”
Sérgio Jaguaribe, 93 anos, saiu de cena no Rio de Janeiro, mas deixou o palco armado: cada risada que desenhou não termina. Jaguar foi daqueles que transformaram a vida nacional em caricatura permanente. O Brasil, convenhamos, é um país que nasceu para ser cartum: políticos que parecem piada pronta se não fosse pagos com nosso dinheiro, tragédias que se repetem como chanchada, personagens que poderiam sair tanto de Brasília quanto de uma mesa de botequim. Jaguar só teve o mérito de escancarar isso em nanquim.

Quando, em 1969, ajudou a fundar o “Pasquim”, estava criando um jeito de sobreviver. Rir, ali, era questão de saúde pública. Enquanto generais faziam cara de bronca, Jaguar e companhia serviam chope com ironia na veia dos leitores. Era mais perigoso que editorial, mais explosivo que panfleto. Uma charge bem feita vale por um processo inteiro, e ele sabia disso.
Seus amigos eram do mesmo calibre: Millôr, Henfil, Ziraldo. Mas havia algo de singular em Jaguar: a preguiça inventiva, o traço rápido, o olhar debochado. Era como se o desenho dele viesse sempre acompanhado de um comentário murmurando: “Vocês não perceberam que o rei está nu?” O Brasil inteiro, nu, desfilava em suas páginas.
A vida dele foi uma longa roda de bar, dessas em que o copo de cerveja vira lupa para entender o mundo. Ali, entre uma anedota e outra, Jaguar tecia sua filosofia. O episódio da cusparada de Chico Buarque em Millôr, que acabou acertando o garçom, ele contava como se fosse um capítulo de “Os Lusíadas”. Nada era pequeno demais para virar grande. Nada era grande demais para não virar piada.
Os colegas, agora, se desmancham em elogios: “o melhor cartunista brasileiro”, disse Chico Caruso; “mestre, gênio”, disse Aroeira; “queria desenhar como ele, mas nunca consegui”, confessou Miguel Paiva. Todos têm razão, mas Jaguar provavelmente riria disso tudo. “Mestre uma ova”, responderia, “eu só rabiscava o que via.”
No fundo, Jaguar deixa um recado definitivo: a gargalhada pode ser mais subversiva que a fúria. O Brasil, tão acostumado a chorar suas desgraças, precisa reaprender com ele que rir é também uma forma de resistência.



