Cármen Lúcia recita poema “Que país é este?”, do poeta Affonso Romano de Sant’Anna

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Durante o julgamento no STF que analisa Jair Bolsonaro e outros sete acusados por tentativa de golpe de Estado, a ministra Cármen Lúcia abriu seu voto com a leitura do poema “Que país é este?”, de Affonso Romano de Sant’Anna, falecido em 2025. O trecho destacado confronta o país real com fingimentos e monumentos vazios — “Uma coisa é um país, outra, um fingimento… Uma coisa é um país, outra o aviltamento” — para denunciar a discrepância entre discurso e ações, e acusar que práticas antidemocráticas foram erguidas sob justificativas espúrias.

O voto de Cármen Lúcia teve papel decisivo para formar a maioria necessária à condenação dos réus — Bolsonaro e seus aliados — por crimes como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e danos ao patrimônio público. Até aquele momento, o placar era favorável à condenação por 3 a 1, com somente o Ministro Luiz Fux absolvendo o ex-presidente de todas as acusações.

Ao utilizar o poema, a ministra não apenas invocou símbolos literários e culturais, mas também estabeleceu uma reflexão profunda sobre a construção histórica do Brasil e os riscos da negação de valores democráticos. Sua fala sublinhou que o país atravessa momentos em que recordar o passado — com injustiças, desigualdades e autoritarismos — torna-se fundamental para compreender e enfrentar o presente.

Foto: Reprodução..

Confira o 1º fragmento do poema:

  • Uma coisa é um país,
  • outra um ajuntamento.
  • Uma coisa é um país,
  • outra um regimento.
  • Uma coisa é um país,
  • outra o confinamento.
  • Mas já soube datas, guerras, estátuas
  • usei caderno “Avante”
  • — e desfilei de tênis para o ditador.
  • Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
  • e éramos maiores em tudo
  • — discursando rios e pretensão.
  • Uma coisa é um país,
  • outra um fingimento.
  • Uma coisa é um país,
  • outra um monumento.
  • Uma coisa é um país,
  • outra o aviltamento.
  • Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
  • em busca da especiosa raiz? ou deveria
  • parar de ler jornais
  • e ler anais
  • como anal
  • animal
  • hiena patética
  • na merda nacional?
  • Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
  • comendo o que as traças descomem
  • procurando
  • o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
  • que nos impeliu a errar aqui?
  • Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
  • nacionais, como qualquer santo barroco
  • a rebuscar
  • no mofo dos papiros, no bolor
  • das pias batismais, no bodum das vestes reais
  • a ver o que se salvou com o tempo
  • e ao mesmo tempo
  • – nos trai

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