O artista indígena Irineu Nje’a Terena abre nesta terça-feira no Centro Cultural de Bauru a Mostra Artística Boca do Sertão, um gesto de travessia e enfrentamento. Ela nasce da terra marcada pelo silêncio forçado, onde os trilhos da história foram colocados sobre corpos indígenas e a promessa de progresso apagou vozes ancestrais. A expressão “boca do sertão” carrega o significado profundo de fronteira entre o urbano e o território indígena, entre o domínio da cidade e o mistério da mata, entre o poder colonial e a cosmovisão originária. É nesse limiar que se inicia a exposição — como quem cruza o último ponto habitado antes de adentrar o invisibilizado.
Historicamente, o interior paulista foi palco da chamada “pacificação” dos Kaingang, iniciada em 1912 como parte de uma investida sistemática do Estado para garantir a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Sob esse termo eufemístico se escondem estratégias de contenção violenta, remoções forçadas e apagamentos culturais. Aproximadamente dez grupos Kaingang ocupavam a região, mas em 1916 foram deslocados para Icatu, em Baraúna, e para a Aldeia Vanuíre, em Arco Íris — onde resistem até hoje, contra o esquecimento.
A ferrovia, inaugurada em 1906, tornou-se símbolo do avanço colonial sobre os territórios indígenas. As aldeias foram destruídas, os povos dizimados, e a floresta desmatada para dar lugar à promessa de desenvolvimento. Hoje, o que resta são trilhos enferrujados, dormentes apodrecidos e vagões esquecidos no pátio de Bauru — ruínas do que o Estado chamou de progresso. Contra esse passado imposto, “Boca do Sertão” se apresenta como contra-narrativa, como memória que sobrevive e insiste em falar.
A mostra é um projeto realizado com apoio do Programa de Ação Cultural, PROAC, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo e percorre as cidades de Bauru, Araraquara, Birigui e São Paulo, levando para cada território o chamado à escuta e à reparação. As obras expostas, cerâmicas e desenhos do artista indígena Irineu Nje’a Terena, são testemunhos artísticos do genocídio indígena no centro-oeste paulista e da persistência de culturas que se recusam a desaparecer. Nelas está gravada a dor, mas também o ritual, a beleza e a luta.
Irineu Nje’a Terena, artista indígena da Aldeia Kopenoti, Terra Indígena Araribá, é o corpo-memória dessa exposição. Residente em Bauru/SP, sua arte é resistência viva. Por meio de suas cerâmicas, narrativas e desenhos de denúncia, Irineu recupera vozes caladas, questiona o pacto colonial que estrutura a história oficial e invoca a força espiritual de seus antepassados.
A abertura de fazendas, a expulsão brutal dos Guarani, os abusos contra mulheres indígenas e o desaparecimento dos Oti-Xavante antes do fim do século XIX compõem o cenário de violência sistemática que esta mostra se recusa a esquecer. Ela não oferece respostas fáceis, mas exige posicionamento. É um chamado à justiça, à escuta profunda e ao enfrentamento coletivo.
Boca do Sertão é uma mostra que não se contempla — se atravessa. Seus trilhos não levam ao progresso, mas à memória. Suas obras não estão apenas expostas — estão vivas!
SERVIÇO
Mostra Artística Boca do Sertão
De Irineu Nje’a Terena
Abertura: 07/10/2025 – 19:30h
Visitas de de 08/10 a 07/11
De segunda a sexta-feira, das 9h às 21h, aos sábados até às 12h
Local: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – Campus Birigui
Rua Pedro Cavalo, 709 – Residencial Portal da Pérola II
Gratuito
Informações: [email protected]



