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“Meu nome é Francisca – Uma história de Chica da Silva” é o novo livro da historiadora Mary Del Priore que revisita a trajetória da mulher à frente de seu tempo

Em seu mais recente livro, a historiadora Mary Del Priore apresenta Francisca sob uma nova luz — não a figura folclórica ou sexualizada, mas a mulher histórica: mãe de treze filhos, esposa dedicada, piedosa, proprietária de bens, senhora de centenas de escravizados e integrante de irmandades religiosas de elite. Assim como nos perfis anteriores de Tarsila do Amaral, da imperatriz Leopoldina e da filha, Maria da Glória, em Meu nome é Francisca assume a narração em primeira pessoa, aliando sua vasta leitura crítica ao refinamento de seu estilo literário. O resultado é um texto primoroso, em que nos acercamos dos fatos históricos sem perder de vista as emoções que essa personagem icônica nos revela sobre o Brasil Colônia e seus desafios econômicos e morais.

Mulher negra nascida escravizada, Chica da Silva foi alforriada e se tornou a mulher mais rica do Brasil. O amor foi o motivo de sua ascensão. Ela se apaixonou pelo seu senhorio e contratador de diamantes da região, João Fernandes de Oliveira, com o qual viveu uma relação amorosa intensa que marcou para sempre a história do Arraial do Tijuco, atual Diamantina, nas Minas Gerais. Seu casamento, contudo, nunca pôde ser oficializado, pois as leis racistas da época não permitiam a união entre um branco e uma negra. Vivendo em concubinato, Chica da Silva e João Fernandes tiveram treze filhos e do companheiro ela herdou toda a fortuna.

Em Meu nome é Francisca,compreendemos as complexidades do poder, do dinheiro, da influência e, sobretudo, dos papéis sociais que levaram uma mulher negra à posição de poder incomum para os padrões de sua época. A edição traz ainda um caderno de imagens.

Ao recuperar falares africanos, a autora reconstitui o cotidiano de mulheres negras que, por meio de uniões consensuais, alcançaram mobilidade social e segurança financeira. O livro também destaca um aspecto pouco explorado: o papel surpreendentemente ativo dos pais, atentos ao futuro e à proteção material de suas famílias. Francisca pertenceu ao segundo grupo economicamente mais rico das Minas Gerais coloniais — o das ex-escravizadas. E, como mostra a obra, não houve apenas uma Francisca: foram muitas.

TRECHO DO LIVRO

“Passada a visita pastoral que o acusou de bigamia, meu senhor resolveu me vender. Vendas eram comuns quando o senhor empobrecia ou morria e seus parentes preferiam se desfazer da escravaria. Ou quando ele tinha dívidas e o cativo entrava como parte do pagamento. Ou, ainda, quando o cativo era doente, desobediente ou fujão. Ou quando o visitador exigia “lançar fora” de casa a concubina escrava. O valor de cada cativo era determinado por sexo, idade, doenças e lesões. Ruim seria ser vendida para outra casa longe do Tijuco, onde eu conhecia tanta gente. Eu sabia de muitas histórias de escravos que se rebelavam e fugiam quando eram separados de familiares ou amigos. O senhor novo ofereceu bom preço? O senhor velho preferiu ficar com Francisca? Nunca soube os pormenores, mas fui vendida por 800 mil réis e minha vida mudou.”

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