No último ano, assistimos ao Brasil ser representado internacionalmente mais de uma vez por atores premiados por seus trabalhos no cinema. Por diversas vezes nos discursos de vitória e nas entrevistas em talk-shows, os representantes da cultura brasileira deram a entender que uma parte da sociedade carece de memórias e sugeriram que o cinema nacional deveria agir como um filtro para auxiliar no discernimento de quais registros devem ser esquecidos, desconstruídos ou reavivados. Além disso, nas falas e nos pronunciamentos, tornou-se comum o brasileiro ser apresentado como um figurante que necessita de proteção contra suas próprias opiniões e valores, enquanto os diretores e atores assumiriam o papel de guias morais, daqueles que defenderiam causas maiores em nome de um grupo.
Contudo, ao menos uma parte da sociedade brasileira já passou a enxergar nesses atores o contrassenso que lhes é próprio. Em ações sutis – como o constante tom de lição de moral mimetizado dos personagens que protagonizaram nos filmes –, até em aspectos mais chamativos – como deixar de falar da obra em uma entrevista para tecer vastos comentários de análise política –, a elite cultural que o Brasil exporta para os eventos internacionais de cinema reproduz um padrão já há muito tempo descrito no exterior: do revolucionário não tão convicto e que busca, antes de tudo, status e aceitação. Esse representante procuraria nas tendências políticas uma forma de performar virtudes e de aparentar bom caráter sem precisar agir dessa forma ou arriscar sua condição social.
Entre outros autores que nos ajudam a entender esse padrão típico da elite do século XX e XXI, destaca-se Tom Wolfe. Em seu livro de 1970, “O Radical chique”, Wolfe descreve uma noite de jantar na casa no maestro Leonard Bernstein e de sua esposa, a atriz Felicia Bernstein, oferecido com o intuito de angariar recursos ao grupo dos Panteras Negras. O jornalista e escritor americano, célebre por sua escrita satírica e prosaísta, observa que a reunião contava com a presença de importantes nomes da política, da cultura, da imprensa e de movimentos sociais, todos esforçando-se para parecerem de fato progressistas.[1] Para isso, era comum que os radicais chiques – termo cunhado pelo Wolfe para se referir ao grupo da elite americana que busca exibir virtudes de modo fácil – substituíssem ocasionalmente os garçons, simplificassem as roupas, vigiassem as palavras e apostassem na intelectualidade popular para não transparecerem seu elitismo. Nas palavras do autor, buscavam parecer “dignos, mas sem nenhum simbolismo classista”.
Ao longo de sua descrição do evento, Wolfe narra que a tensão entre os grupos no apartamento intensificou-se paulatinamente. Primeiro, os radicais chiques, por um breve momento, deram-se conta de que as ideias ali defendidas eram, não somente opostas a seus ofícios, mas também colocavam em risco estabilidade social que os sustentavam. Não suficiente os debates que surgiram dessa faísca, o jornalista ainda chama a atenção para o momento em que o sr. Bernstein sem querer esvaziou as motivações declaradas dos radicais. Ao insistir em saber de que maneira a revolução seria feita, se com violência ou de forma pacífica, o anfitrião deixou escapar que a razão real dos radicais não passava de problemas subjetivos aos quais qualquer um estaria exposto, podendo até mesmo ser descrita como alguma neurose ou algum arquétipo.
Por fim, o retrato que Tom Wolfe oferece da elite americana dos anos 70 assemelha-se muito à imagem da elite cultural que o Brasil exporta. Atualizando o comportamento dos radicais chiques, nossos atores e atrizes, por conveniência, são contumazes em propagandear valores que, se aplicados, corroeriam seus próprios ofícios. Ao tentar performar grandeza, eles fingem simplicidade ao exibir o luxo, recheiam seus discursos com conceitos vagos e inapropriados e cansam a audiência ao forçarem um tom político em qualquer contexto. Porém, assim como no apartamento do casal Bernstein, é possível ver que quanto mais a elite cultural busca falsear virtudes, mais as diferenças entre o discurso e a realidade aparecem. Afinal, como lembra Wolfe, um radical chique é radical somente no estilo, pois no cerne é ligado às tradições sociais e apegado, mais do que tudo, a seu próprio status quo.
[1] O autor utiliza a expressão “liberais” que atualizamos aqui para um termo equivalente no Brasil.
**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação.



