É recorrente nos estudos sobre a história do Brasil a observação de que a política nacional é permeada por símbolos religiosos.
José Murilo de Carvalho, renomado historiador, cientista político e autor de uma vasta obra sobre História do Brasil, em “A formação das almas” (1990), busca explicar esse fenômeno observando que, desde a guinada republicana em 1889, três principais ideologias constituíram o imaginário político brasileiro: a ideologia do liberalismo, que seguia o modelo americano; do jacobinismo, que importava o formato revolucionário francês; e do positivismo, que transformava a ciência e o planejamento em estruturas estatais.
De acordo com o autor, foi particularmente da utopia positivista que a política brasileira herdara seu aspecto religioso. Em suas palavras, “os santos da nova religião eram os grandes homens da humanidade, os rituais eram festas cívicas, a teologia era sua filosofia e sua política, os novos sacerdotes eram os positivistas”. Dessa maneira, no novo Brasil que surgia entre os séculos 19 e 20, a caridade católica a era substituída pelo sentimento secular altruísta.
As instituições públicas se hierarquizavam, ganhando a função de representar a solidariedade popular. Os “santos” do novo país passaram a ser representados nas imagens de heróis laicos, especialmente pelas iconografias de Marianne – alegoria da república francesa e que até hoje está presente nas notas de real – e de Tiradentes – conhecido como herói e mártir cívico.
Mais de um século depois do movimento observado por José Murilo de Carvalho é possível adicionar outro rito sagrado ao imaginário político do Estado brasileiro, o da peregrinação. Destoando-se do sentido salvífico, a peregrinação secular a Brasília com o intuito de chamar a atenção das autoridades e representantes para esta ou aquela pauta passou a fazer parte do cotidiano político do país.
Para lembrarmos daquelas de maior aglomeração, podemos referenciar a marcha de 1997, realizada por membros do MST (Movimento Sem Terra), que se dirigiram até Brasília com o intuito de pressionar o Governo de Fernando Henrique Cardoso. Novamente, em 2005, o mesmo movimento deslocou-se de Goiânia a Brasília para obter do governo o compromisso com pautas de reforma agrária. Já em 2015, percorrendo um caminho mais longo, o grupo do MBL protagonizou, por 33 dias, a Marcha pela Liberdade, partindo de São Paulo para chamar atenção ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Para além dessas, a peregrinação mais recente foi conduzida pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL), no movimento intitulado “Caminhada pela Liberdade”. Após 240km, a viagem entre Paracatu e Brasília, que durou cerca de uma semana, teve como objetivo convocar a população civil para a participação política, demonstrando que a vontade popular deve ser maior do que as instituições que a representam.
A marcha de janeiro, que foi noticiada, em grande parte, pelas redes sociais dos caminhantes, apresentou todos os símbolos de uma peregrinação penitencial: o sacrifício da viagem solitária, o risco da caminhada em grupo, as paragens providenciais e o recebimento de alimentos por meio de doações voluntárias.
Contudo, se a peregrinação religiosa com destino a um lugar sagrado testemunha o reavivamento da fé, as caminhadas realizadas no último século para Brasília, independente de seus objetivos, expõem uma lacuna na engrenagem democrática. No Brasil republicano, ao transformar símbolos religiosos em ritos políticos, Brasília toma o lugar dos santuários e se torna o destino da romaria do cidadão, invertendo a lógica de um sistema representativo.
Remontando a análise de Carvalho, é possível retirar dessa reflexão uma lição custosa. A cada marcha encabeçada por partidos ou grupos, fica mais nítida a distância entre o centro do poder político e o interesse da população. Na vivência desse imaginário político, não basta o eleitor somente escolher os representantes de suas demandas. Se quiser desfrutar de alguma graça, precisará peregrinar e pagar uma penitência. Assim, Brasília passou a simbolizar as atribulações pelas quais o cidadão comum precisa passar até que suas necessidades sejam noticiadas, protocoladas e, somente com muita sorte e providência, atendidas.
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