Em um ambiente de metas agressivas e resultados imediatos, a frustração tem sido presença constante no cotidiano profissional. O neurocirurgião e especialista em liderança e neurociência aplicada José Carlos Rodrigues Junior afirma que o sentimento pode ser um motor de desenvolvimento. “Embora desconfortável, a frustração não é sinal de fraqueza: é uma resposta emocional natural e, quando bem compreendida, pode se tornar um importante instrumento de crescimento”, diz.
Segundo o médico, esse incômodo aparece quando expectativa e realidade não se encontram. “Ela surge quando há um descompasso entre o que esperamos e o que realmente alcançamos”, afirma. Para ele, reconhecer o papel da frustração ajuda a ajustar rotas e a tomar decisões mais conscientes ao longo da carreira.
O que acontece no cérebro
Rodrigues Junior explica que a frustração ativa regiões cerebrais que detectam conflitos e erros, reduzindo temporariamente a sensação de recompensa. É o sinal de que é hora de rever estratégias. Esse mecanismo, ressalta, tem função adaptativa: promove aprendizado e recalibra objetivos.
Quando a cobrança vira risco
O problema, observa o especialista, começa quando a cultura corporativa transforma alta performance em pressão incessante. “Metas desproporcionais e comparações constantes ativam o chamado modo de ameaça do cérebro, aumentando a liberação de cortisol, hormônio do estresse.” Com atenção estreitada e criatividade em queda, o trabalho entra em piloto automático — porta de entrada para o esgotamento profissional (burnout).
Para preservar a saúde mental e o desempenho, ele recomenda práticas que desaceleram o sistema nervoso e ampliam a resiliência, como pausas conscientes, redefinição de propósito e apoio social. “A autocompaixão, por exemplo, não significa complacência, mas sim reconhecer os próprios limites sem julgamento, o que reduz a atividade da amígdala cerebral e favorece respostas mais racionais”, explica.

Como transformar a frustração em aliada
Em vez de tentar eliminá-la, o médico sugere acolher a frustração como bússola para prioridades e limites. “A frustração, portanto, não precisa ser temida nem reprimida. Ela pode servir como bússola interna, indicando o que realmente importa e o que precisa ser revisto.” A virada, afirma, está em usar o desconforto como motor de ajustes sustentáveis para pessoas e organizações.
No fim, o recado é direto: evolução exige maturidade emocional. “A maturidade emocional não vem da ausência de frustrações, mas da capacidade de transformá-las em aprendizado.”


