Antes visto como problema majoritariamente de idosos, o câncer de intestino vem avançando entre adultos jovens. Estudos internacionais e dados nacionais apontam aumento consistente de casos em pessoas com menos de 50 anos, tendência observada em diversos países. “O que antes era considerado uma doença predominantemente de idosos agora cresce de forma considerável entre os adultos jovens”, afirma a oncologista Samara Theodoro Pacheco.
Levantamentos citados pela especialista mostram que a incidência do câncer colorretal (também conhecido como câncer de intestino) cresce em média 1,45% ao ano entre 20 e 49 anos em dezenas de países. No Brasil, de acordo com o INCA, a estimativa gira em torno de 45 mil novos casos anuais, com alta proporcionalmente maior entre os mais jovens.
Esse cenário muda a forma de encarar sintomas e cuidados. “Os protocolos de rastreamento começavam aos 50 anos, e queixas como sangramento ou alteração do hábito intestinal em pacientes de 30 ou 40 anos muitas vezes eram atribuídas a causas benignas. Hoje, essa postura já não se sustenta”, diz Pacheco.
O que pode estar por trás da tendência
As razões para o aumento entre jovens ainda estão em estudo. Há indícios de que o estilo de vida — sedentarismo, obesidade e consumo de ultraprocessados — contribua, mas não explica tudo. Avanços em genômica e no entendimento do microbioma intestinal trazem novas pistas.
Segundo a médica, um estudo publicado na revista Nature destaca a possível participação de determinadas cepas da bactéria Escherichia coli que produzem colibactina, toxina capaz de causar danos no DNA com um padrão mutacional específico encontrado em tumores. A pesquisa sugere que tumores diagnosticados antes dos 40 anos têm até três vezes mais chance de carregar esse “rastro” do que em pessoas acima dos 70.
A presença da bactéria, isoladamente, não basta para causar a doença. Entre 30% e 40% dos adultos saudáveis podem abrigar microrganismos produtores de colibactina sem desenvolver câncer. A hipótese é de que a toxina atue em conjunto com outros fatores, como disbiose, obesidade e exposições ambientais e comportamentais — uso recorrente de antibióticos, dieta rica em açúcar e ultraprocessados, baixa ingestão de fibras e até possível contato com microplásticos.

Sintomas e rastreamento: quando procurar ajuda
A orientação é ficar atento a sinais que, em jovens, costumam ser subestimados. Entre eles:
- · Sangramento retal
- · Mudança persistente do hábito intestinal
- · Dor abdominal
- · Perda de peso sem explicação
Sociedades médicas já recomendam antecipar o rastreamento para os 45 anos na população geral, com debate sobre estratégias ainda mais personalizadas para grupos de maior risco. “Faz-se necessário maior atenção a sintomas que não devem ser ignorados, além de políticas de rastreamento mais assertivas”, reforça a oncologista.
Desafio para a saúde pública
O avanço do câncer de intestino entre jovens impõe um novo desafio para prevenção e diagnóstico precoce. “A integração de evidências epidemiológicas, genômicas e ambientais será crucial para aprimorar políticas de prevenção, estratégias de rastreamento e abordagens terapêuticas”, conclui Pacheco.



