Quem cruza o saguão da Estação da Luz, muitas vezes com pressa, talvez não perceba que está caminhando por um dos capítulos mais importantes da história de São Paulo. Entre embarques e desembarques diários, o prédio que já virou cartão-postal da cidade acaba de completar 159 anos, e segue vivo, pulsando junto com a rotina da capital.
Hoje, cerca de 140 mil pessoas passam por ali todos os dias, entre embarques e desembarques, sem contar as que passam por debaixo da terra e seguem seus destinos. Mas nem sempre foi assim. A estação nasceu no século XIX com um objetivo bem diferente: transportar o café produzido no interior paulista até o porto de Santos, acelerando a economia do país.
Do café aos passageiros
Segundo Wellington José Berganton, assessor executivo de gerência de manutenção geral da CPTM, a construção da ferrovia pelos ingleses mudou a dinâmica da cidade.
“A população se mobilizou rapidamente, porque percebeu que era possível transportar o café e também pessoas”, explica.
O que começou como um sistema pensado para cargas ganhou rapidamente novos usos. A demanda por mobilidade fez crescer a estrutura ferroviária e levou à ampliação da estação, até chegar ao prédio atual, que se tornou um dos ícones arquitetônicos da capital.
Três estações em uma história
Pouca gente sabe, mas a Estação da Luz que existe hoje é a terceira versão do complexo ferroviário, inaugurada apenas em 1901.
A primeira era mais simples, inaugurada em 16 de fevereiro de 1867, e ficava cerca de 550 metros da localização atual, em direção ao Brás. Já a segunda ganhou mais estrutura administrativa e plataformas cobertas, acompanhando o aumento do fluxo de passageiros, e foi inaugurada em 1880.
Com o crescimento da cidade, surgiu o projeto definitivo, inspirado em modelos europeus do século XIX.
Arquitetura inglesa no coração paulista
A influência britânica aparece em cada detalhe. As torres e o famoso relógio remetem a construções inglesas da época, como o estilo arquitetônico visto na Abadia de Westminster.
“O relógio virou referência na cidade. As pessoas ajustavam suas horas por ele”, conta Wellington. Quem é mais antigo se lembra muito bem desse detalhe, era olhar o relógio da Luz e dirigir os olhos imediatamente para o pulso, para conferir se o relógio pessoal estava marcando corretamente as horas.
Importada peça por peça da Inglaterra, a estrutura metálica foi montada por trabalhadores brasileiros, um encontro simbólico entre tecnologia europeia e mão-de-obra local.
Incêndios e restaurações
Ao longo da história, a estação também enfrentou momentos difíceis. Dois grandes incêndios marcaram o edifício: um em 1946 e outro, mais recente, em 2015, durante o incêndio do Museu da Língua Portuguesa.
Por ser tombada por órgãos de preservação histórica, as restaurações precisaram respeitar rigorosamente as características originais, garantindo que a memória arquitetônica fosse mantida.
Hoje, além da estrutura histórica, a Luz também abriga uma estação subterrânea, ampliando a conexão com o sistema metroferroviário.
Passeios de trem para reviver o passado
Além do transporte diário, a CPTM promove passeios turísticos que saem da própria Estação da Luz rumo a destinos históricos como Paranapiacaba, Jundiaí e Mogi das Cruzes.
“É um serviço diferenciado para as famílias, que podem aproveitar tanto a viagem quanto os atrativos do destino”, explica Wellington.
Os ingressos são vendidos pelo site da CPTM e costumam ter boa procura, o que exige planejamento antecipado.
Um pedaço vivo da história
Mais do que uma estação de passagem, a Luz segue como ponto de encontro entre passado e presente. Entre turistas, trabalhadores e apaixonados por trens, o edifício continua lembrando como a ferrovia ajudou a transformar São Paulo, e o Brasil, no que é hoje.



