O
número de intercâmbios entre alunos de graduação das
universidades públicas brasileiras despencou com o fim do programa
Ciência sem Fronteiras, do governo federal. Sem a ajuda do
Ministério da Educação (MEC) desde julho de 2016 e em meio à
crise econômica, as instituições de ensino federais e estaduais
reduziram em até 99% o número de alunos enviados ao exterior até o
ano passado. Para especialistas, esse dado representa não só uma
perda de experiência acadêmica para os estudantes, mas também um
prejuízo para a formação científica no País.
O
Estado analisou dados de 17 instituições de ensino superior público
– 30 universidades de todas as regiões do País foram procuradas
pela reportagem, mas nem todas responderam. Entre as instituições
analisadas estão as três estaduais paulistas, Universidade de São
Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), além de outras 14 federais, de um
total de 64. Todos os documentos foram obtidos por meio da Lei de
Acesso à Informação enviados por cada uma das instituições.
Um
dos casos mais dramáticos está na Universidade Federal do ABC, do
Estado de São Paulo, onde só três bolsas foram concedidas no ano
passado, ante 551 em 2014, auge do Ciência sem Fronteiras – uma
queda de 99,4%. A universidade diz que, sem o respaldo do governo
federal, viabilizar intercâmbio tem sido “um desafio”, mas
que tem buscado aumentar a quantidade de convênios internacionais ao
longo dos anos – atualmente há 18, em 10 países diferentes, segundo
a instituição.
Sonho
Aluno de
Engenharia de Gestão na UFABC, João Coelho, de 22 anos, ingressou
na universidade em 2014 com o sonho de estudar no exterior. “Víamos
muita gente indo e, logo que entrei, comecei a participar dos
processos de preparação”, conta. Coelho chegou até a prestar
o TOEFL, exame de proficiência de língua inglesa cuja inscrição
custou cerca de R$ 800. “Nesse tempo de preparação acabou
tendo o corte e o sonho ficou para trás”, diz o estudante, que
pretendia ir a Dublin, na Irlanda, em 2016.
Para ele, o
fim do programa não é apenas uma perda para os alunos, mas também
para o País. “Quem viaja traz muita coisa para que possamos
aplicar aqui, desenvolver a ciência e a tecnologia no Brasil.”
Perdas e ganhos
Desde a sua
criação, em 2011, o Ciência sem Fronteiras dividiu a opinião de
especialistas. O programa era alvo de críticas pela falta de
acompanhamento acadêmico aos estudantes e por ter pouco impacto
científico, mas também era visto como uma oportunidade de
compartilhar conhecimento, contribuir para o repertório científico
do País e enriquecer o sistema educacional.
“O
Ciência sem Fronteiras é uma faca de dois gumes. Por um lado, o
Brasil apareceu pela primeira vez no cenário internacional. Por
outro, teve um custo altíssimo, entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões
e, até hoje, não se sabe exatamente qual foi o objetivo do
programa”, diz o especialista em internacionalização do ensino
superior Leandro Tessler, da Unicamp. Para ele, é importante que as
universidades tenham algum tipo de oferta de internacionalização na
graduação, mas com maior diálogo com os setores de cada uma delas
e tentando trazer mais alunos estrangeiros para o Brasil.
O
alto custo do programa também foi um dos principais argumentos do
Ministério da Educação para encerrá-lo. Quando anunciou seu fim,
em julho de 2016, o ministro da Educação Mendonça Filho (DEM)
afirmou que, em 2015, o programa custou R$ 3,7 bilhões, para atender
35 mil bolsistas. De acordo com a pasta, esse mesmo valor foi usado
para atender 39 milhões de alunos no programa federal de merenda
escolar.
Para o
vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), Carlos Roberto Cury, a redução das bolsas ofertadas para
alunos de universidades públicas é um desfecho “cruel” da
crise econômica no País. “A ciência perdeu a circulação de
cérebros, o compartilhamento de conhecimentos e descobertas que
havia com os intercâmbios. Porque os alunos da graduação se
tornarão os futuros pesquisadores, o prejuízo na formação deles
impacta na ciência”, diz. Ele avalia, porém, que um dos
problemas do programa foi na seleção dos alunos, que deveria ter
ficado sob responsabilidade das universidades.
Bolsas privadas
Bolsas
internacionais privadas, como o Santander Universidades, também
registraram uma redução neste ano – foram 1.191 internacionais,
ante 1.416 no ano passado. Mas o banco promete ampliar a oferta para
1.501 em 2018. “Programas de bolsas passaram por uma
reformulação, e adotando um posicionamento focado em 3 pilares:
formação, emprego e empreendedorismo”, diz, em nota. O banco
apontou ainda que, nos últimos dois anos, concedeu mais de 1.900
bolsas para universidades públicas e, nos últimos cinco anos,
14.743 (incluindo bolsas nacionais).
MEC quer focar em ensino
médio e pós-graduação
Em nota, o
Ministério da Educação (MEC) informou que irá elaborar um estudo
para viabilizar o envio de alunos do ensino médio para estudar no
exterior. A pasta afirmou ainda que, em 2016, gastou R$ 1,7 bilhão
para regularizar auxílios
que estavam
atrasados a 19,3 mil bolsistas. Disse também que, agora, o foco do
Ciência sem Fronteiras é na pós-graduação.
“Na
semana passada, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior) divulgou o edital do programa CAPES/PrInt, que
terá R$ 300 milhões anuais para apoio a Projetos Institucionais de
Internacionalização. No total, serão selecionados até 40
projetos.”Segundo o MEC, os projetos selecionados receberão
recursos para missões de trabalho no exterior, bolsas no Brasil e no
exterior e outras ações de custeio aprovadas pela CAPES. Procurada,
a USP não quis se manifestar. A Unicamp culpou o fim do Ciências
sem Fronteiras pela queda nas bolsas e a “deterioração das
condições econômicas” no País. Disse ainda que tem se
empenhado em desenvolver e aprimorar as condições que viabilizem o
intercâmbio internacional, adequando processos acadêmicos e
facilitando a emissão de documentos em inglês. Já a Unesp informou
que os altos custos e o fim do Ciência sem Fronteiras foram os
causadores do problema.
Com informações de Estadão conteúdo.

