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“Contem comigo, mas não como candidato”, diz Luciano Huck

Como
Ulisses em “A Odisseia”, nos últimos meses estive amarrado
ao mastro, tentando escapar da sedução das sereias, cantando a
pulmões plenos e por todos os lados, inclusive dentro de mim.

A
tripulação, com seus ouvidos devidamente tapados com cera,
esforçando-se em não deixar que eu me deixasse levar pelos sons dos
chamados quase irresistíveis. São meus amores incondicionais. Meus
pais, minha mulher, meus filhos, meus familiares e os amigos próximos
que me querem bem.

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Eles
são unânimes: é fundamental o movimento de sair da proteção e do
conforto das selfies no Instagram para somar forças na necessária
renovação política brasileira. Mas daí a postular a candidatura a
presidente da República há uma distância maior que os oceanos da
jornada de Ulisses.


algum tempo me vejo diante desta pergunta: qual foi exatamente a
trajetória, o fato e até mesmo o momento em que meu nome foi
lançado entre os possíveis candidatos à Presidência do Brasil?

Eu
mesmo demorei um pouco para encontrar a resposta. Mas depois de
alguma reflexão, ela veio e me pareceu muito clara: minha exposição
pública e, espero, meu jeito, minhas características, minha
personalidade e a forma como vejo o mundo. As mesmas forças que me
movem desde sempre me levaram a esse lugar.

Explicando
em outras palavras, entre as centenas de defeitos que carrego, talvez
eu tenha uma única virtude: carrego desde sempre, genuinamente,
enorme paixão e curiosidade pelo outro.

Gosto
muito de gente. Sempre gostei. De todo tipo, origem, tamanho, cor,
posição na pirâmide. É só olhar para o que faço
profissionalmente há mais de duas décadas. Não paro de procurar
pelo diferente. E não falo de um olhar distante, acadêmico,
teórico. Falo de andanças intermináveis por todos os quadrantes do
Brasil e por vários do mundo atrás daquilo que não conheço. Ando
há anos e anos por lugares ricos, paupérrimos, super ou
subdesenvolvidos, em guerra, centros moderníssimos de saber, cantos
absolutamente esquecidos pelo desenvolvimento. Sempre atrás da mesma
coisa: gente boa.

E
a sensação de “intimidade” que meus mais de 20 anos de
televisão provocam nas pessoas possibilita conversas
instantaneamente francas e verdadeiras.

Esse
dia a dia me permitiu construir uma visão muito própria e ampla dos
recortes, curvas e reentrâncias do país. Sinto na pele o pulso das
ruas.

E
foi essa permanente “bateção de perna”, sempre ” in
loco”, que me tirou definitivamente da zona de conforto e me fez
ver: O Brasil está sofrendo demais —especialmente os mais pobres,
mas não apenas eles— para ficarmos passivos e reféns deste
sistema político velho e corrupto. O que está aí jamais será
empático, perceberá e muito menos traduzirá as reais necessidades
da gente. Da nossa gente.

Vendo
meu nome apontado, é muito importante frisar sempre, sem ter
levantado a mão ou me oferecido para concorrer ao cargo mais
importante na governança do país, minha reação natural foi tentar
entender melhor do que se tratava. Gosto de aprender, de saber o que
não sei e penso que cultivo um bom hábito desde muito cedo: tentar
descobrir e encontrar quem sabe.

De
forma intuitiva e quase caseira, fui procurando referências em
pessoas que se dedicam de forma mais intensa a entender o Brasil; o
sofrimento, as dificuldades e, principalmente, as soluções.

Acho
também que sou meio obsessivo por fazer as coisas direito. Por isso,
saí buscando e principalmente ouvindo dezenas de pessoas que admiro,
que considero inteligentes, sensíveis, maduras e capacitadas, para
que elas compartilhassem comigo suas visões. Foram meses que
produziram em mim uma pequena revolução, um aprendizado enorme.

Tantas
ideias, tanta gente interessada, brilhante e altamente capacitada,
disposta a colocar energia a favor de uma transformação definitiva:
De um país à deriva em uma nação de verdade, que possa de uma vez
por todas refletir a qualidade indiscutível do seu povo.

Aqui
é importante pontuar uma constatação que logo apontou no meu radar
e que há tempos ecoa nele de maneira incômoda. Minha geração está
trabalhando e inovando com vigor em muitas frentes. Há milhares de
notáveis empreendedores, profissionais liberais, atletas,
executivos, artistas, intelectuais, pensadores e por aí vai. Mas
pela política, ela tem feito pouco.

Tenho
dito sempre algo que me parece muito evidente, quase óbvio, mas
assim mesmo um alerta necessário: se não nos aproximarmos de fato
da política, se seguirmos negando esse universo e refratários ao
seu ambiente, ele definitivamente não se reinventará por um passe
de mágica.

Dito
isso, sigo acreditando que o melhor caminho passa obrigatoriamente
pelos movimentos cívicos, pela abertura de espaço na mídia para
novas lideranças, por uma escuta dos anseios das pessoas, por
reformas estruturais, muitas delas doloridas, por políticas públicas
afetivas e efetivas, por políticas econômicas modernas e eficazes,
pela educação levada a sério, pela saúde tratada com respeito,
por tecnologia que alavanque as boas ideias e pela total
transparência dos gastos públicos. Por menos politicagem e por mais
e melhor representatividade. A lista é grande.

O
momento de total frustração com a classe política e com as opções
que se apresentam no panorama sucessório levou o meu nome a um lugar
central na discussão sobre a cadeira mais importante na condução
do país.

É
claro que isso me trouxe a sensação boa de que uma parte razoável
da população entende o que sou e faço como algo positivo. Evidente
também que junto vieram uma pressão muito pesada e questionamentos
de todos os tipos.


disse e escrevi
antes,
aqui neste mesmo espaço, mas tenho hoje uma convicção ainda mais
vívida e forte de que serei muito mais útil e potente para ajudar
meu país e o nosso povo a se mover para um lugar mais digno,
ocupando outras posições no front nacional, não só fazendo aquilo
que já faço mas ampliando meu raio de ação ainda mais.

Com
a mesma certeza de que neste momento não vou pleitear espaço nesta
eleição para a Presidência da República, quero registrar que vou
continuar, modesta e firmemente, tentando contribuir de maneira ativa
para melhorar o país. Vou bem além da voz amplificada enormemente
pela televisão que amo fazer, do eco monumental das redes sociais
que aprendi a tecer, do instituto que fundei há quase 15 anos e de
todos os meios que o carinho das pessoas me proporcionou.

Vou
também direcionar toda a energia de que disponho para outra coisa
que acredito saber fazer: agregar.

Agregar
as mentes sábias que fui encontrando em diferentes camadas da
sociedade, dentro e fora do Brasil, pessoas extremamente capazes e
dispostas de fato a conjugar o verbo servir no tempo e no sentido
corretos. Vou trabalhar efetivamente para estruturar e me juntar a
grupos que assumam a missão de ir fundo na elaboração de um
pensamento e principalmente de um projeto de país para o Brasil.

E,
para isso, não são necessários partidos, cargos, nem eleições.

Essa
intenção já esta viva através dos movimentos cívicos dos quais
me aproximei com bastante interesse e intensidade. E de outras
iniciativas que estão por vir.

Quero
registrar de novo que entre as percepções que confirmei nesses
últimos meses está a convicção de que não há nada mais
importante do que tomarmos consciência da importância da política
e de que precisamos nos mover concretamente na direção da atuação
incisiva, para que não sejamos mais vítimas passivas e manobráveis
de gente desonesta, sem caráter, despreparada e incapaz de entender
o conceito básico da interdependência ou de pensar no coletivo.

A
hora é de trabalhar por soluções coletivas inteligentes e
inovadoras para o país, e não de focar o próprio umbigo ou de
alimentar polêmicas pueris e gritas sem sentido.

Quem
se interessa pelo que sou e faço pode acreditar: vou atuar cada vez
mais, sempre de acordo com minhas crenças, em especial com a fé
enorme que tenho neste país.

Contem
comigo. Mas não como candidato a presidente.

Por Uol – Folha S. Paulo

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