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O
crítico literário Harold Bloom, em seu Cânone Americano, erige, ao
lado de Walt Whitman, Herman Melville como o mais “ambicioso e
sublime” escritor norte-americano. Em sua época, contudo,
Melville (1819-1891) foi tido como um mero escriba de romances
náuticos. Morreu soterrado pelo ocaso na cova rasa em que a crítica
deposita os corpos dos ditos escritores medianos.
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Melville só
iniciou sua escalada ao posto de um dos baluartes do tal “grande
romance americano” quando, passadas três décadas de sua morte,
foi resgatado por autores como William Faulkner e D.H Lawrence, que
buscavam terreno fértil para fincar as raízes literárias
americanas além dos versos de Henry Wadsworth Longfellow e do fugere
urbem de Henry David Thoreau.
Foi então que a percepção de seus romances mudou drasticamente e
as adaptações de suas obras espraiaram-se pelas mais diversas
mídias. Peter Ustinov filmou Billy Budd, O Marinheiro em 1962 para
refletir as tensões da guerra fria.
Bartleby,
o Escrivão, adaptado em 1970 por Anthony Friedman e em 2001 por
Jonathan Parker, foi enfim reconhecido como a pérola
niilista-burocrata-corporativa que é, cada dia mais atual em um
mundo globalizado e robotizado. Nada mais justo que sua obra-prima,
Moby Dick, levada mais de dez vezes à televisão e ao cinema (desde
1926, em um filme dirigido por Millard Webb), seja homenageada também
nos quadrinhos.
A
história da baleia branca já havia sido quadrinizada, entre muitos
outros, pelo italiano Dino Battaglia (1967), pelo francês Paul
Gillon (1983) e pelos norte-americanos Bill Sienkiewicz (1990) e Will
Eisner (2001), sendo este o autor de The Spirit (1940) e um dos
maiores estetas da história dos quadrinhos, responsável por
inovações gráficas que perduram até hoje no formato. A investida
mais recente, de 2014, é do francês Christophe Chabouté, publicada
agora no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim.
Estética
Logo
no início de Moby Dick, o traço fino e bastante definido de
Chabouté se faz notar, lembrando outro mestre francês, Moebius. A
modulação da espessura do traço, embora tímida, está lá dando
volume aos objetos e criando um dos mais belos efeitos marítimos dos
quadrinhos.
Por
mais que boa parte da trama se passe em alto-mar, a paisagem nunca
fica monótona graças à ambientação detalhada dos cenários em
planos abertos. Para focar a atenção do leitor, Chabouté economiza
traços nos planos médios e closes, alternando as angulações de
plongée e contra-plongée.
Como
o autor desenha em preto e branco, sem o uso de retículos ou
degradê, as imagens são sempre chapadas, trabalhando em cima do
forte contraste entre luz e sombra. Em alguns momentos, a cena só é
visível a partir da ausência de luz; em outros, o Sol parece
ofuscar o leitor. Há diversas sequências de vinhetas em planos
abertos nas quais somente a silhueta do navio ou dos personagens é
visível ou uma pretensa câmera se mantém fixa enquanto a ação
transcorre de um canto a outro em silêncio.
Este,
aliás, é um elemento muito bem utilizado pelo quadrinista: o
silêncio. Embora boa parte do texto original tenha sido mantido –
citações do livro abrem cada capítulo -, não é pequeno o desafio
de transmitir sem palavras essa atmosfera inicialmente leve, até
cômica, que vai ganhando tons mais sombrios e épicos à medida que
o drama se desenrola.
Talvez
alguém que não seja iniciado na linguagem dos quadrinhos não
consiga aproveitar o ritmo cadenciado e os longos silêncios
beckettianos que Chabouté imprime para tentar se aproximar da verve
filosófica da prosa de Melville. O francês deixa de lado a
tradicional sequência frenética “ação a ação” dos
quadrinhos ocidentais e assume o contemplativo estilo “perspectiva
a perspectiva”, mais característico dos mangás japoneses.
É
uma excelente solução, mas é claro que a linguagem de Melville é
insubstituível, como ocorre com qualquer adaptação. Por isso, a
dramaticidade de alguns momentos, especialmente os mais próximos do
final, acaba comprometida com a ausência de palavras.
Trabalhos
de Chabouté
Moby
Dick é um dos melhores trabalhos de Chabouté, cuja primeira
aparição foi em Les Récits (1993), uma antologia sobre o poeta
Arthur Rimbaud, mas não é sua primeira adaptação de um clássico
literário: o quadrinista de 50 anos, até então inédito no País,
publicou Construire un Feu (2007), inspirado em To Build a Fire, de
Jack London.
Um
de seus destaques é a trilogia Purgatoire (2003-2005), uma biografia
em quadrinhos de Henri Désiré Laundru, serial killer e uma espécie
de Barba Azul da França, responsável por 11 assassinatos entre 1915
e 1919, mencionado por Marcel Proust em sua obra Em Busca do Tempo
Perdido e inspiração de Charles Chaplin em Monsieur Verdoux.
Tão
injustiçado em vida, Melville foi tratado como subproduto cultural,
tal como, em outros tempos, o jazz, o romance em prosa e a
fotografia. Não é por acaso que sua obra tenha sido retratada com
tamanha excelência por outra manifestação artística relegada à
margem durante muito tempo: os quadrinhos.
Com informações de Estadão Conteúdo.

