Para encerrar esta série sobre a grandeza da música negra, é impossível não falar de Dona Ivone Lara, a “Primeira Dama do Samba”. Sua trajetória é um monumento à resiliência e ao talento que desafiou as estruturas patriarcais de uma das manifestações mais tradicionais da cultura brasileira. Por muito tempo, o ambiente das alas de compositores das escolas de samba era um território exclusivamente masculino.
As mulheres eram relegadas ao papel de passistas, baianas ou intérpretes, mas raramente tinham suas letras e melodias aceitas pelos “donos” das agremiações. Dona Ivone Lara, com sua doçura e firmeza, rompeu essa barreira em 1965, tornando-se a primeira mulher a assinar um samba-enredo de uma grande escola, a Império Serrano, com o antológico “Os Cinco Bailes da História do Rio”.
Além de sua revolução no samba, Ivone Lara teve uma carreira paralela igualmente nobre e desafiadora como enfermeira e assistente social. Trabalhando ao lado da Dra. Nise da Silveira, ela foi pioneira na humanização do tratamento psiquiátrico no Brasil. Ivone utilizava a música como terapia para os pacientes, acreditando no poder curativo da arte décadas antes de isso se tornar uma prática comum.
Essa dualidade entre o cuidado com a saúde mental e a criação artística deu à sua obra uma profundidade emocional e uma espiritualidade únicas. Suas composições, como “Sonho Meu” e “Sorriso Negro”, não são apenas músicas para dançar; são hinos de esperança e afirmação que tratam a dor com a delicadeza de quem conhece os abismos da alma humana.

O reconhecimento de Dona Ivone como compositora não veio de imediato. No início, ela precisava que seus parentes homens apresentassem suas músicas como se fossem deles para que fossem avaliadas. No entanto, a qualidade de seu melisma e a sofisticação de suas harmonias eram impossíveis de esconder. Ela trouxe para o samba uma influência do choro e da música erudita que aprendeu na escola, elevando o nível lírico das composições populares. Ao conquistar o respeito dos bambas, Ivone abriu as portas para que inúmeras outras mulheres negras pudessem empunhar o violão e a caneta, reivindicando seu lugar como autoras de sua própria cultura. Ela provou que o samba é uma construção coletiva, mas que sem o olhar e a sensibilidade feminina, a nossa música estaria incompleta.
O legado de Dona Ivone Lara é eterno e multifacetado. Ela nos deixou aos 97 anos, mas sua voz continua a ecoar como um símbolo de dignidade e resistência. Ela foi uma mulher negra que ocupou espaços de prestígio na saúde pública e na cultura popular em uma época em que ambos os caminhos eram estreitos para pessoas de sua cor e gênero. Celebrar Dona Ivone é celebrar a inteligência da mulher negra brasileira, que sabe transformar o sofrimento em melodia e a exclusão em um “sorriso negro de quem quer passar”. Ela permanece como a matriarca de todos nós, lembrando que o samba é a nossa maior terapia e que o talento, quando aliado à persistência, tem o poder de mudar a história de um país inteiro.



