Nos últimos anos, o Carnaval de rua no Brasil, especialmente no eixo Rio-São Paulo, passou por uma transformação profunda que vai muito além do crescimento numérico de foliões. O que vemos hoje é uma retomada política e estética do espaço público, onde a cultura dos blocos se tornou o principal palco para a expressão da identidade negra e a luta contra o apagamento histórico. No Rio de Janeiro, berço das escolas de samba, os blocos de rua carregam a herança dos antigos “cordões” e “afoxés”, mantendo viva a batida dos terreiros no asfalto. Já em São Paulo, o fenômeno do Carnaval de rua, que explodiu na última década, trouxe à tona uma organização vibrante de coletivos que reivindicam a cidade como um lugar de celebração e protesto.
A importância dos blocos com recorte racial, como o Ilú Obá De Min em São Paulo, exemplifica essa tendência. Ao ocupar o centro da metrópole com centenas de mulheres negras tocando tambores, o bloco não apenas faz música; ele realiza um ritual de cura e visibilidade. A batida do ijexá e do samba-reggae ressoa entre os prédios cinzas, lembrando que a São Paulo “moderna” foi construída sobre o suor e a ancestralidade negra. No Rio de Janeiro, blocos como o Agbara Dudu e as celebrações ligadas ao samba de raiz reafirmam que o Carnaval de rua é a resistência contra a gentrificação das festas populares. A rua, ao contrário dos camarotes luxuosos, é democrática, mas também é um campo de batalha simbólico onde a estética negra — cabelos, turbantes, cores e pinturas — é celebrada sem pedidos de desculpas.
Esse crescimento dos blocos também reflete uma mudança na forma como as novas gerações consomem a Música Popular Brasileira. Há um resgate de compositores negros clássicos, cujas obras são adaptadas para o formato de cortejo, permitindo que jovens redescubram Gilberto Gil, Milton Nascimento e Dona Ivone Lara em um ambiente de festa coletiva. O Carnaval de rua tornou-se, portanto, uma ferramenta pedagógica informal. Enquanto o folião canta e dança, ele está, muitas vezes, entoando versos que falam de liberdade, de orixás e de heróis negros que não aparecem nos livros escolares. É uma forma de “re-africanizar” a cidade, transformando o asfalto em um quilombo urbano temporário, onde a alegria é usada como arma política contra o racismo estrutural.
Por fim, o fenômeno dos blocos de rua em São Paulo e Rio de Janeiro aponta para o futuro da cultura brasileira: uma celebração que não aceita mais ser confinada a espaços segregados. O crescimento dessa cultura é o resultado de uma população que deseja ver sua cara estampada na cidade. Ao som dos metais e da percussão, a música negra brasileira reafirma seu papel como a espinha dorsal da nossa identidade nacional. A rua é o lugar onde o Brasil se encontra consigo mesmo, e nesse encontro, a batida do tambor é o coração que pulsa mais forte, garantindo que a memória dos antepassados continue guiando os passos da multidão rumo a um futuro de maior igualdade e reconhecimento.



