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“Zé do Caroço” e a Voz de uma Favela Ativa

A música “Zé do Caroço”, imortalizada pela voz potente de Leci Brandão, não é apenas um clássico do samba; é um documento histórico e antropológico sobre a resistência negra e a organização comunitária nas periferias do Rio de Janeiro. Composta na década de 1970, a canção narra a história real de José do Caroço, um morador da Vila Aliança, em Bangu, que decidiu romper o silêncio imposto pela grande mídia e pela negligência do Estado. Através de um alto-falante instalado em sua própria casa, Zé do Caroço transmitia notícias, avisos e, principalmente, consciência para seus vizinhos. Em um período onde a ditadura militar silenciava vozes e a televisão começava a ditar o comportamento das massas, a “Rádio do Zé” representava uma afronta ao sistema e um abraço à comunidade local.

Leci Brandão, ao escrever essa letra, capturou a essência do que hoje chamamos de “favela ativa”. A letra menciona que “enquanto a televisão atrai o povo com a novela, no alto do morro tem alguém que cuida da favela”. Essa antítese entre a alienação das telas e a realidade crua do morro define a importância da comunicação comunitária. Para a população negra, historicamente marginalizada e representada de forma estereotipada nos grandes veículos de comunicação, ter um porta-voz que falasse “de dentro para dentro” era uma forma de manutenção da dignidade e da identidade. Zé do Caroço não pedia licença; ele ocupava o espectro sonoro da comunidade para dizer que aquele território tinha vida, problemas e, acima de tudo, gente que se importava uma com a outra.

A trajetória dessa composição na Música Popular Brasileira é também um reflexo da evolução do pensamento social no país. Ao longo das décadas, “Zé do Caroço” foi regravada por diversos artistas, de Seu Jorge ao Grupo Revelação, tornando-se um hino de empoderamento. A “favela ativa” descrita por Leci hoje se desdobra em coletivos de mídia ninja, comunicadores populares e influenciadores digitais que, como herdeiros de José, utilizam as ferramentas disponíveis para denunciar o descaso e celebrar a potência da cultura negra. A canção nos ensina que a música negra brasileira nunca foi apenas sobre entretenimento, mas sobre a construção de uma rede de proteção e visibilidade que o asfalto, muitas vezes, tentou ignorar.

Hoje, quando ouvimos os versos que pedem para “ir ao morro da Vila Aliança e procurar por Zé do Caroço”, estamos sendo convocados a olhar para a liderança comunitária como a base da democracia brasileira. O legado dessa música reside na compreensão de que a cultura negra é, por definição, um movimento de ocupação de espaços. Seja no som de um alto-falante rudimentar ou nos palcos dos maiores festivais de música, a voz da periferia se faz presente para lembrar que a história do Brasil não pode ser contada sem as vozes que gritam do alto do morro.

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