Sem sombra de dúvida, o artista mais carismático e tecnicamente dotado que o Brasil já produziu no campo do entretenimento de massas foi nosso querido Wilson Simonal.
Na década de 1960, ele atingiu um nível de popularidade que nenhum outro artista negro havia sonhado: comandava estádios inteiros com um estalar de dedos, tinha seu próprio programa de TV (“Show em Si Monal”) e era o rosto de grandes campanhas publicitárias.
Simonal criou a “Pilantragem”, uma mistura solar de samba, soul, jazz e pop que exalava uma autoconfiança contagiante. Ele foi o primeiro a provar que um homem negro brasileiro poderia ser um ícone de elegância, riqueza e domínio absoluto da cena, quebrando a imagem do sambista humilde para assumir a do “Rei da Noite”.
No entanto, sua história é também uma das mais sombrias da MPB, marcada por um processo de ostracismo que revela as feridas abertas do racismo e das tensões políticas do país.
A técnica vocal de Simonal era impecável. Ele possuía uma extensão e uma afinação que deixavam seus contemporâneos boquiabertos, além de uma capacidade de improviso rítmico que o aproximava dos grandes crooners americanos como Frank Sinatra e Sammy Davis Jr.
Em sucessos como “Sá Marina”, “Tributo a Martin Luther King” e “País Tropical”, ele demonstrou que a música negra brasileira poderia ser pop, sofisticada e extremamente comercial sem perder a raiz.
Relembre as faixas abaixo:
Simonal era um mestre da comunicação; ele regia a plateia como se fosse um instrumento, criando uma conexão psíquica com o público. Sua queda, ocorrida após um incidente envolvendo um contador e acusações (muitas vezes infundadas ou exageradas pela época) de colaboração com os órgãos de repressão da ditadura, resultou em um “cancelamento” histórico que durou até o fim de sua vida.
Ele passou de ídolo nacional a pária, vendo sua obra ser apagada das rádios e dos livros de história.
O resgate da memória de Wilson Simonal nas últimas décadas é um ato de justiça musical. Independentemente das controvérsias de sua biografia pessoal, seu gênio artístico é inegável e fundamental para entender a evolução da música negra no Brasil.
Ele abriu as portas para que a estética soul e o funk se tornassem populares no país, influenciando diretamente o movimento Black Rio e artistas como Jorge Ben Jor e Tim Maia.
Simonal mostrou que o negro brasileiro não precisava pedir desculpas pelo seu sucesso ou pelo seu brilho. Sua trajetória serve de alerta sobre como a sociedade muitas vezes é implacável com artistas negros que ousam atingir o topo do poder simbólico.
Hoje, redescobrir Simonal é mergulhar em um Brasil que queria ser feliz e moderno através da música. Ele permanece como o mestre do swing, o homem que ensinou o Brasil a estalar os dedos no ritmo certo e a acreditar que a alegria é uma forma de realeza.



