A Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (UE-HCFMRP) da USP alcançou o Status Diamante no WSO Angels Awards 2025, certificação internacional considerada o mais alto reconhecimento para hospitais com excelência no atendimento ao Acidente Vascular Cerebral (AVC). O prêmio é concedido pela iniciativa Angels, em parceria com a World Stroke Organization e a empresa Boehringer Ingelheim.
A conquista consolida uma trajetória de melhoria contínua do hospital, que já havia recebido o selo Platinum em 2020 e Gold em 2021, 2023 e 2024. Para alcançar a categoria Diamante, a unidade precisa comprovar indicadores rigorosos de qualidade, como agilidade no atendimento, realização rápida de exames de imagem e cumprimento de protocolos assistenciais. Entre os principais critérios estão o chamado “tempo porta-agulha” (intervalo entre a chegada do paciente e o início do trombolítico), a realização imediata de exames de imagem e o tempo para procedimentos como a trombectomia mecânica, que deve ocorrer em até cerca de duas horas nos casos indicados.
“Essa é a premiação máxima da iniciativa Angels. Ela reconhece o nosso hospital como referência no atendimento ao paciente com AVC, de acordo com todos os tempos e metas assistenciais exigidos internacionalmente”, afirma o neurologista e professor da FMRP Octávio Pontes Neto, chefe do Serviço de Neurologia Vascular e Emergências Neurológicas do HCFMRP e coordenador da Rede Nacional de Pesquisa em AVC.
Trabalho integrado de múltiplas equipes
O professor destaca que esse é um trabalho de várias equipes, “desde o acolhimento do paciente, passando pelo Núcleo Interno de Regulação, sala de urgência, Unidade AVC, enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, farmácia, psicologia, assistência social e neurologia”. Ao todo, cerca de 20 a 25 profissionais atuam diretamente no atendimento diário, além de uma rede ampliada de suporte multiprofissional.
A enfermeira e educadora Engels Karla Leal Trevisan ressalta que o atendimento ao AVC depende de articulação permanente. “O trabalho não é constituído por uma equipe só, nem por um profissional só. Existem vários profissionais envolvidos, desde o atendimento pré-hospitalar até a saída desse paciente.”
Já a coordenadora da Unidade de AVC, Millene Rodrigues, explica que o cuidado vai além da fase aguda. “Nosso atendimento é focado na estabilização do quadro e na investigação da causa do evento. O paciente já sai daqui com a profilaxia mais adequada e continua acompanhado no ambulatório e na reabilitação durante o primeiro ano após o AVC.” Após a alta, os pacientes seguem acompanhamento especializado e têm acesso a programas de reabilitação multidisciplinar, com fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e suporte psicológico.
Dados e pesquisa ajudam a salvar vidas
A fisioterapeuta Priscilla Queiroz de Lima atua na coordenação de pesquisas, na coleta e na análise de dados assistenciais que subsidiam a melhoria contínua do serviço. A certificação internacional exige o registro sistemático dos atendimentos em plataforma global, permitindo auditoria contínua dos indicadores e comparação com padrões internacionais.
“Quando os dados são coletados com qualidade, conseguimos enxergar onde estamos acertando e onde precisamos avançar. Esse monitoramento é essencial para reduzir tempos de atendimento e garantir melhores resultados para os pacientes”, afirma Priscilla.
Segundo ela, o acompanhamento sistemático transforma informação em cuidado. “Cada indicador analisado representa uma oportunidade de aperfeiçoar processos e salvar vidas.”
Atendimento de alta complexidade para a região
A Unidade de Emergência do HC atende pacientes dos 26 municípios da Diretoria Regional de Saúde de Ribeirão Preto. O volume de casos vem crescendo e reforça a demanda regional pelo serviço especializado. “Somos referência de alta complexidade para toda a região. Atendemos pacientes de todos esses municípios”, afirma Millene. Em média, a unidade atende cerca de 12 pacientes por semana, dos quais aproximadamente 35% têm indicação para terapias de recanalização, como trombólise ou trombectomia.
No Brasil, apenas cerca de 5% dos pacientes com AVC recebem trombólise. Na região atendida pelo hospital, esse índice chega a cerca de 18% a 20%, podendo alcançar entre 35% e 40% nos casos tratados na Unidade de Emergência do HCFMRP. “Esse resultado está diretamente associado à organização do fluxo assistencial e à capacitação das equipes”, enfatiza Pontes Neto.
Um dos diferenciais do hospital é a trombectomia mecânica, procedimento indicado para parte dos casos graves de AVC isquêmico. O HCFMRP é referência regional para essa terapia de alta complexidade. É o único serviço da região a oferecer esse tipo de intervenção de forma contínua, disponível em poucos centros do País. “Em torno de 25% a 30% dos pacientes precisam desse segundo tratamento, que funciona como um cateterismo para retirar o trombo do vaso cerebral. Sem isso, muitos ficariam com sequelas maiores”, explica Pontes Neto.
O hospital realiza trombólise desde 2001 e foi pioneiro no País na oferta de trombectomia mecânica 24 horas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), implantada em 2011.
Para o coordenador da Unidade de Emergência, Luis Donizeti da Silva Stracieri, o prêmio confirma a vocação pública e universitária do hospital. “É muito gratificante saber que trabalhamos em um hospital que possui um serviço de excelência. Esse resultado mostra a força do trabalho multiprofissional e do compromisso diário das equipes.”
Com o Diamond Status, o HCFMRP passa a integrar um grupo seleto de hospitais brasileiros reconhecidos internacionalmente pela excelência no cuidado ao AVC.
**Por Jornal da USP



