O grupo educacional brasileiro SEB negocia com o governo de Abu Dhabi a abertura de uma unidade da Harven Agribusiness School, com foco em agronegócio, e intensificou as tratativas após o agravamento da guerra no Oriente Médio. O projeto envolve investimento estimado em US$ 100 milhões e previsão de funcionamento a partir de 2027.
O empresário Chaim Zaher afirma que a iniciativa responde a uma demanda estratégica da região. “Hoje, cerca de 90% dos alimentos consumidos na região são importados. É um ponto delicado que se agravou com a guerra. Há uma política de segurança alimentar que tem por objetivo reduzir essa dependência e se tornou ainda mais urgente com o conflito”, declarou. Ele acrescenta que a transferência de conhecimento brasileiro se encaixa nesse cenário. “Para isso, é necessário ter conhecimento em agronegócio, em novas tecnologias para plantios no deserto. E levar a Harven, que é brasileira, faz todo o sentido”.
O projeto prevê que o governo dos Emirados Árabes Unidos financie a infraestrutura por meio de fundos soberanos, enquanto o SEB assume a estrutura acadêmica, com definição de cursos, contratação de professores e implementação pedagógica.
Demanda por segurança alimentar impulsiona projeto
Países do Golfo enfrentam limitações naturais, como escassez de água doce e solos arenosos, o que dificulta a produção agrícola em larga escala. A dependência externa chega a 90% nos Emirados e varia conforme o tipo de alimento, com índices entre 90% e 100% para cereais.
O professor Marcos Fava Neves, da Universidade de São Paulo, destaca que o setor na região exige especialização técnica. “Eles contam com engenheiros e capital, mas muitas vezes carecem de quem entende a fisiologia da planta e a economia do ciclo longo, áreas onde a academia brasileira é mestre”, afirmou. O governo local projeta criar cerca de 65 mil empregos ligados à segurança alimentar até 2051, com foco em qualificação profissional e inovação tecnológica.
Tecnologia agrícola e parcerias internacionais
A região já investe em soluções como fazendas verticais, hidroponia, dessalinização e reaproveitamento de água. Outra técnica utilizada é o Nano Clay, que mistura água e argila para melhorar a retenção de nutrientes no solo. As estufas também seguem modelo adaptado ao clima extremo, com estruturas voltadas para reduzir o calor.
A proposta da Harven inclui integração entre professores brasileiros e árabes em projetos de pesquisa, estudos de caso e iniciativas empresariais. Segundo Neves, a instituição deve atuar também como ponte econômica. “A Harven será porta de entrada para investimentos dos países árabes no Brasil, ajudando nos projetos, a encontrar empresas brasileiras para receber esses aportes e desenvolver talentos e tecnologias”, disse.
Expansão do SEB no Golfo e interesse de investidores
O SEB já mantém presença na região com cerca de 20 unidades da escola bilíngue Maple Bear. A expansão para o ensino superior ocorre em um contexto de alta demanda por educação internacional.
Investidores locais demonstram interesse no projeto. O fundo soberano Mubadala avalia a formação de profissionais para atuar em operações ligadas ao agronegócio e ampliar investimentos no setor. O Brasil aparece como referência global, com instituições como a Embrapa, o que reforça o interesse dos países árabes em parcerias educacionais e tecnológicas.
Negociações avançam mesmo com conflito
Chaim Zaher afirma que o conflito no Oriente Médio não compromete o andamento do projeto. “Ao contrário, a necessidade de não depender da importação de alimentos se tornou ainda mais urgente. Para obras, eles são muito rápidos, têm muita tecnologia, é questão de poucos meses para erguer a faculdade”, disse.
O empresário também negocia acordos comerciais próprios com a região. A proposta inclui exportação de parte da produção de uma fazenda na Bahia em troca de investimentos em tecnologia e expansão produtiva. A primeira unidade da Harven no Brasil funciona em Ribeirão Preto desde 2024 e reúne cerca de 500 alunos. O avanço para o Oriente Médio marca a internacionalização do modelo educacional voltado ao agronegócio brasileiro.



