Manter o mesmo número na balança por muito tempo costuma soar como sinal de estabilidade. No consultório, segundo a cardiologista Tatiana Brito Klein, é comum ouvir: “Doutora, meu peso é praticamente o mesmo há anos.” Mas a medicina já entende que o peso, sozinho, não dá conta de revelar o que está acontecendo dentro do corpo.
Uma das explicações é a chamada obesidade sarcopênica, quando a pessoa acumula gordura ao mesmo tempo em que perde músculo. “O número da balança, sozinho, conta apenas uma parte da história — e, às vezes, a parte menos importante”, escreve a médica. O resultado é um organismo que pode parecer “normal”, mas fica mais vulnerável do ponto de vista metabólico.
Quando o peso engana
Com o avanço da idade, especialmente a partir da quarta ou quinta década de vida, o corpo tende a trocar músculo por gordura. Como o músculo é mais denso, essa substituição pode ocorrer sem grandes mudanças no peso corporal.
Na prática, isso significa manter o mesmo peso — ou até um IMC dentro da faixa considerada normal — e ainda assim perder força, mobilidade e proteção cardiovascular. A condição aparece com mais frequência, segundo o artigo, em mulheres após a menopausa, pessoas sedentárias, quem fez dietas muito restritivas ao longo da vida e pacientes com doenças crônicas ou inflamatórias.
O que os exames mostram por dentro
A diferença entre aparência e realidade fica mais clara quando se avalia a composição corporal. “O problema é que essa transformação acontece por dentro — longe do espelho”, alerta a cardiologista.
Exames como DXA (densitometria) e bioimpedância podem identificar redução de massa muscular e a presença de gordura dentro do músculo. Essa gordura intramuscular, explica a médica, “não é inofensiva”: compromete a função muscular, aumenta inflamação e interfere no metabolismo da glicose. Entre especialistas, o fenômeno é conhecido como “marmorização” do músculo.

Por que isso pesa para o coração
A perda de músculo não é apenas uma questão de força ou mobilidade. O músculo esquelético atua como um “órgão metabólico”, ajudando a regular glicose, sensibilidade à insulina e gasto energético. Quando ele diminui, aumenta a resistência à insulina e cresce o risco de diabetes, gordura no fígado e doenças cardiovasculares.
Do ponto de vista cardiológico, a obesidade sarcopênica está associada a maior prevalência de hipertensão, insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana. O artigo ressalta que a combinação de excesso de gordura e perda muscular pode ser mais perigosa do que a obesidade isolada, inclusive em mortalidade cardiovascular. A médica resume: “Força não é estética. É proteção”.
No tratamento, a mudança de foco é essencial. “Não se trata apenas de ‘emagrecer’, mas de preservar e reconstruir músculo”, afirma. A orientação inclui alimentação com proteína suficiente ao longo do dia, correção de deficiências como vitamina D e, principalmente, treino de força. “O exercício resistido — musculação, pilates, treinamento funcional — é peça central do tratamento. Ele não é opcional”, destaca, observando que exercícios aeróbicos ajudam, mas não substituem o estímulo de força.
Para a médica, avaliar composição corporal já faz parte do cuidado cardiovascular completo, com apoio de ferramentas como questionários funcionais e exames. “Cuidar do coração passa, inevitavelmente, por cuidar do músculo”, conclui.



