A inteligência artificial vai roubar o meu emprego?

Pablo Juan Cruz
Pablo Juan Cruz
Pablo Juan Cruz é cofundador da IONIC Health, healthtech global nascida no Brasil que está revolucionando a operação remota de exames de imagem de alta complexidade.Com mais de 15 anos de experiência em transformação digital nos setores financeiro, jurídico e de saúde, Pablo liderou equipes multidisciplinares em projetos estruturantes de modernização e reestruturação, com foco na otimização de fluxos diagnósticos e na democratização do acesso a tecnologias críticas.Como cofundador e executivo C-level da IONIC, é responsável pelo desenvolvimento comercial e pelo relacionamento estratégico com clientes. Integra o time de liderança que conduziu a expansão internacional da empresa para a América Latina, Europa e Estados Unidos, estruturando operações em contextos diversos de mercado e cultura.Ao longo de sua trajetória, atuou como mentor e conselheiro de empresas em diferentes setores, apoiando negociações multimilionárias e processos de escala e inovação.Pablo possui especialização em Inovação em Saúde pela Harvard University e formação em Chief Digital Officer (CDO) pela FIA Business School. Também participou do programa Leading The Future da Singularity University e foi reconhecido pela Forbes Brasil como uma das principais lideranças em inovação na saúde.Sua trajetória combina visão estratégica, gestão de projetos complexos e compromisso com resultados que transformam o cuidado em saúde.
imagem gerada por IA

A taxa de desemprego nos EUA está em 4,3%. Praticamente a mesma de 2020, antes de qualquer coisa que hoje chamamos de inteligência artificial existir como produto de consumo. Esse número deveria encerrar a conversa sobre o apocalipse dos empregos, mas não o faz, pois a pergunta errada continua dominando o debate. O problema não é se a inteligência artificial vai eliminar postos de trabalho. É que ela já está decidindo quem vai ocupá-los.

A confusão de muita gente vem de uma ideia errada que pegou nas conversas: a de que a inteligência artificial é um robô que vai bater à porta da empresa e demitir todo mundo. Não funciona assim. O que a IA faz é multiplicar a capacidade de quem sabe usá-la. Um profissional que antes precisava de uma semana para preparar uma apresentação agora faz isso em uma tarde. Um analista que levava três dias para escrever um relatório entrega-o antes do almoço. Não é mágica. É uma ferramenta nova sendo usada por quem teve coragem de aprender.

Isso não respeita a profissão nem a idade. Está acontecendo com médicos, advogados, professores, jornalistas, arquitetos, consultores e vendedores. Em todas as áreas, ao mesmo tempo. O Vale do Silício tem um nome para esse novo tipo de profissional que vem emergindo desse processo. Eles chamam de HIC (High Impact Individual Contributor). Em bom português, significa algo como “contribuidores individuais de alto impacto” ou “profissional de alto impacto”. É o profissional que, armado com as ferramentas certas, entrega sozinho o que antes exigia uma equipe. Não é gestor de pessoas. Não gerencia reuniões, não distribui tarefas nem acompanha o desempenho de ninguém. O que ele faz é usar a inteligência artificial como se fosse uma equipe que trabalha 24 horas por dia, não tira férias, não reclama de prazo e executa qualquer instrução com precisão. Enquanto isso, ele cuida da parte que a IA ainda não consegue fazer: ter a ideia certa, entender o cliente, tomar a decisão que importa, construir a relação que gera negócios.

Esse conceito está redesenhando a hierarquia das empresas de um jeito que ainda não aparece nos organogramas, mas já se reflete nos resultados. Philip Su, ex-engenheiro da OpenAI e da Meta, escreveu recentemente que o papel tradicional do profissional que só executa, sem a camada de estratégia, está com os dias contados. Não porque será substituído por um robô. Mas por que o profissional de alto impacto ao lado dele faz o mesmo trabalho com mais qualidade e em menos tempo? A empresa, naturalmente, começa a se perguntar por que precisa de dois quando um já entrega o suficiente.

O problema é que, quando alguém entrega cinco vezes mais do que você, fazendo o mesmo trabalho e recebendo o mesmo salário, o mercado começa a se reorganizar de forma cruel e silenciosa. O chefe percebe. O cliente percebe. A concorrência percebe. E aí, o profissional que ficou para trás começa a ouvir aquelas frases que ninguém quer ouvir, do tipo: a empresa precisa enxugar, a área vai passar por uma reestruturação, infelizmente, vamos ter que rever a equipe. Ninguém vai dizer que foi a inteligência artificial. Vai parecer que foi crise, corte de custos, ou mudança de estratégia. Mas, na prática, o que aconteceu foi que havia um profissional de alto impacto entregando seu trabalho com muito mais eficiência por menos dinheiro, e a empresa fez a conta.

A boa notícia é que essa mudança não exige curso de programação nem diploma em tecnologia. É mais parecido com aprender a usar o Google nos anos 90. No começo, todo mundo achava complicado; hoje qualquer criança usa. Quem começa hoje, em três meses já está em outro patamar. Quem começa daqui a um ano vai correr atrás.

As ferramentas mais avançadas do mundo estão disponíveis em qualquer celular conectado, no mesmo dia em que são lançadas no Vale do Silício. Um profissional em Recife ou em Manaus tem acesso exatamente às mesmas ferramentas que um profissional em Nova York. O que separa um do outro hoje é só a disposição para aprender. Pela primeira vez, não precisamos importar infraestrutura para competir.

A pergunta certa não é se a inteligência artificial vai roubar o seu emprego. É se você vai estar do lado que cresce ou do lado que assiste. Essa escolha está sendo feita agora, todo dia, em cada decisão de abrir ou não uma nova ferramenta. E, como toda escolha importante, ela vai parecer óbvia só depois que for tarde demais.

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