Os casos de feminicídio seguem em crescimento no interior do Estado de São Paulo e acendem um alerta sobre a necessidade de fortalecer políticas públicas de combate à violência contra a mulher. Levantamento do Instituto Sou da Paz aponta que as agressões aumentaram 41% no primeiro trimestre de 2026. Os números revelam um cenário preocupante e mostram que o feminicídio está diretamente ligado ao avanço de outras formas de violência de gênero registradas nos últimos anos.
Entre os crimes que mais cresceram estão violência doméstica, ameaças, agressões físicas, estupros e estupros de vulnerável. Especialistas explicam que esse conjunto de violências faz parte de uma estrutura social marcada pelo machismo, pela desigualdade entre homens e mulheres e pela naturalização de comportamentos agressivos.
Violência de gênero vai além do feminicídio
A pesquisadora Débora Piccirillo, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, afirma que o aumento do feminicídio não pode ser analisado de forma isolada. Segundo ela, “existe um ambiente social que estimula diferentes formas de violência contra as mulheres e que pode se manifestar em qualquer lugar, inclusive em cidades do interior”.
A especialista destaca que o Brasil avançou na criação de mecanismos de proteção às vítimas, como delegacias especializadas de atendimento à mulher, medidas protetivas, casas-abrigo e acompanhamento judicial. Essas ferramentas são consideradas fundamentais porque auxiliam mulheres em situação de risco e podem evitar crimes mais graves.
Apesar disso, Débora ressalta que grande parte das políticas públicas ainda atua apenas após a violência ocorrer. “As ações preventivas, que poderiam trabalhar a conscientização e impedir que a agressão aconteça, ainda são limitadas e muitas vezes dependem de iniciativas isoladas dentro das instituições”, afirma.
Educação e conscientização são apontadas como caminhos
Para a pesquisadora, combater o feminicídio exige uma mudança cultural profunda. Ela defende investimentos em educação, campanhas de conscientização e programas voltados à discussão sobre masculinidade, respeito e igualdade de gênero.
“É importante trabalhar não apenas com crianças e adolescentes nas escolas, mas também com homens adultos que já apresentam histórico de comportamento agressivo. A ideia é desenvolver ações que mostrem formas saudáveis de convivência e relacionamento, sem violência, controle ou submissão das mulheres”, explica.
Débora também alerta que medidas exclusivamente punitivas não resolvem completamente o problema. Sem acompanhamento psicológico, social e educativo, muitos agressores acabam repetindo os mesmos padrões de violência em novos relacionamentos, criando novas vítimas.
Rede de atendimento precisa de preparo especializado
Outro ponto considerado essencial é a qualificação dos profissionais que atuam diretamente nesses casos. Policiais militares, delegados, escrivães, promotores, juízes e equipes de atendimento precisam receber formação específica sobre violência de gênero para compreender melhor os sinais de risco e evitar falhas no acolhimento das vítimas.
A pesquisadora lembra que o feminicídio possui características diferentes de outros crimes violentos. Na maioria das vezes, existe uma relação próxima entre vítima e agressor, marcada por ameaças, controle emocional, perseguição e histórico de violência doméstica.
Por isso, segundo especialistas, o atendimento exige preparo técnico e sensibilidade. “Muitas mulheres procuram ajuda antes do crime acontecer, mas nem sempre conseguem proteção adequada ou são levadas a sério. Isso reforça a importância de fortalecer a rede de atendimento e ampliar o acesso à informação”, destaca a pesquisadora.
Os dados mostram que o enfrentamento ao feminicídio depende de ações integradas entre segurança pública, educação, assistência social, saúde e justiça. Mais do que punir os agressores, especialistas defendem a necessidade de investir em prevenção para reduzir a violência desde a origem. O aumento dos casos no interior paulista reforça a urgência de políticas públicas permanentes, capazes de proteger as mulheres, conscientizar a sociedade e impedir que novos casos continuem acontecendo.
**Por Jornal da USP


