Há um tipo de negócio que nasce do afeto e, por isso mesmo, é difícil de replicar e mais difícil ainda de ignorar. A Casa de Bolos, rede de franquias fundada em Ribeirão Preto (SP) em 2010 por Sônia Ramos e seus filhos, é exatamente esse tipo de negócio. Começou com bolos feitos em casa por uma matriarca que hoje todos chamam de “Vó Sônia”, ganhou escala sem perder o cheiro de forno, e agora chama atenção de quem está no topo da cadeia: a AB Mauri Brasil, subsidiária da britânica Associated British Foods (ABF), acaba de pagar cerca de R$ 200 milhões para colocar a rede dentro do seu portfólio.
O negócio movimenta o setor de alimentos e recoloca na mesa um debate estratégico que vai além das franquias: o de quem, afinal, vai controlar o ponto de venda no mercado brasileiro de alimentação.
Quem é quem nessa história
A AB Mauri não é uma empresa qualquer. Trata-se da subsidiária brasileira da Associated British Foods, conglomerado britânico avaliado em aproximadamente R$ 100 bilhões é responsável por marcas que habitam as cozinhas do mundo inteiro: os fermentos Fleischmann, a Ovomaltine dos milkshakes e o chá Twinings, entre outras. No Brasil, a empresa fabrica há mais de 90 anos e tem duas unidades industriais no interior paulista, em Pederneiras e Sorocaba, de onde saem fermentos, misturas para bolo, cremes e coberturas usadas por padarias, confeitarias e operações de food service em todo o país.
A Casa de Bolos, por sua vez, é a maior rede de franquias de bolos do Brasil. Fechou 2025 com 600 lojas espalhadas por 20 estados, presença em mais de 250 cidades e uma unidade operando em Lisboa. O faturamento chegou a R$ 720 milhões no ano passado com crescimento de 11,6% nas operações, com a abertura de 63 novas unidades. Para 2026, a projeção é de 700 lojas e R$ 800 milhões em receita. A produção atual já gira em torno de 60 mil bolos por dia.
A lógica da verticalização
Por décadas, a AB Mauri operou inteiramente no chamado mercado B2B, vendia ingredientes para quem produzia, e nunca se aventurou no varejo diretamente ao consumidor. A aquisição da Casa de Bolos muda esse paradigma de forma incomum e deliberada.
O raciocínio é quase elegante: a multinacional que fornece fermento, mistura pronta e coberturas para confeitarias passa a controlar uma rede varejista que consome exatamente esses produtos em larga escala. Da fábrica à vitrine, sem intermediários. Do ponto de vista industrial, é uma integração vertical clássica. Do ponto de vista estratégico, é uma aposta de que controlar canais de venda diretos ao consumidor vale mais, no longo prazo, do que depender de terceiros para colocar os produtos nas mesas dos brasileiros.
A atração foi precisamente a autenticidade da marca, conexão com o público e a solidez do modelo que foi construída ao longo dos anos, este foi o pensamento do diretor-geral da AB Mauri Brasil. Esta forma de pensar diz muito sobre a empresa multinacional vê o negócio: não são apenas lojas ou receita, mas um capital impalpável de uma marca com uma forte conexão emocional.
O segredo da Vó Sônia
Para entender por que a Casa de Bolos valia R$ 200 milhões, é preciso entender por que a Casa de Bolos existe. Tudo começou com Sônia Ramos, então com 64 anos, fazendo bolos em casa para que seus três filhos, Fabrício, Daniel e Rafael vendessem e complementassem a renda da família. Um ano depois, em 2011, a família percebeu que a demanda era maior do que a cozinha comportava e abriu o modelo de franquias.
O crescimento foi construído sobre uma proposta simples e propositalmente não-glamourosa: bolo caseiro, quentinho, padronizado, acessível. Sem sofisticação desnecessária. Sem cardápio inflado. Sem pretensão gourmet. Enquanto outras redes de alimentação apostaram em complexidade, a Casa de Bolos apostou na memória afetiva, no bolo no café da manhã, na fatia da tarde, no lanche que não precisa de ocasião especial para acontecer.
Essa escolha revelou um nicho que a grande indústria havia deixado descoberto: o consumo cotidiano de bolo no Brasil. Ao contrário de outros países, onde o bolo é reservado para datas comemorativas, por aqui ele aparece no café da manhã, na sobremesa, na reunião de escritório e no final de semana em família. A ABF vê, nesse comportamento, “um potencial para a Casa de Bolos ser uma das maiores franqueadoras do Brasil”, segundo fontes a par da transação.
O que muda e o que permanece
A operação ainda depende de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que recebeu a notificação oficial recentemente. Analistas do setor não enxergam obstáculos regulatórios relevantes, dado que a aquisição não cria concentração significativa em nenhum mercado específico.
Do ponto de vista operacional, as empresas foram enfáticas em comunicar continuidade. A Casa de Bolos seguirá como unidade de negócios independente dentro da AB Mauri Brasil, mantendo a marca, portfólio, posicionamento e modelo de franquias. Mais do que isso: a família fundadora permanece no comando. Fabrício, Daniel e Rafael Ramos continuarão como executivos da operação, uma garantia simbólica e prática de que a essência da marca não será diluída pelo DNA corporativo da compradora.
Para os franqueados, a mensagem é de segurança: um grupo com a solidez financeira da ABF, que fatura cerca de £20 bilhões por ano. Na estrutura da rede representa acesso a capital, logística e governança de classe mundial. O que, em tese, pode acelerar ainda mais a expansão e proteger o modelo em ciclos econômicos adversos.
O franchising como motor econômico
O momento da aquisição não é casual. O setor de franquias brasileiro vive um dos melhores períodos de sua história. Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), apenas no estado de São Paulo o setor faturou R$ 102,6 bilhões em 2025, alta de 10,7% sobre o ano anterior. Em nível nacional, o mercado encerrou o período com faturamento histórico de R$ 301,7 bilhões, crescimento consolidado de 10,5%.
Dentro desse universo, redes de alimentação com baixo tíquete médio, alta frequência de compra e operações simples têm se destacado especialmente em cidades médias que é exatamente o perfil da Casa de Bolos, que cresceu de forma consistente em mercados que redes maiores ignoravam.
Não por acaso, até abril de 2025, a rede já havia cadastrado 63 novas unidades — e antes da venda estimava abrir 100 lojas neste ano. Com o aporte da AB Mauri, esse número tende a ser revisado para cima.
Um sinal para o mercado
A aquisição da Casa de Bolos vai além de um negócio bem estruturado entre duas empresas bem-sucedidas. Ela sinaliza uma mudança de comportamento das grandes multinacionais de ingredientes diante de um mercado cada vez mais disputado por distribuição e contato com o consumidor final.
Controlar o ponto de venda, mesmo que via franquias, é uma forma de garantir escoamento, fidelidade de marca e dados de consumo que nenhum contrato de fornecimento consegue proporcionar. À medida que o food service brasileiro se fragmenta em milhares de pequenos operadores, quem tiver capilaridade e reconhecimento de marca junto ao consumidor estará em posição privilegiada.
Da mesa da família Ramos em Ribeirão Preto ao portfólio de uma empresa avaliada em cem bilhões de reais, a história da Casa de Bolos é, em muitos sentidos, a história do empreendedorismo brasileiro em sua versão mais genuína: simples na ideia, consistente na execução e grande o suficiente para chamar atenção de quem joga em outra escala. O bolo, nesse caso, sempre esteve certo.


