Tela em transformação: Líderes se reúnem na RIO2C para debater sobre o futuro do audiovisual

O Ministério da Cultura colocou na mesa uma agenda urgente: como garantir que a produção nacional chegue a mais brasileiros em um cenário de revolução tecnológica e multiplicação de plataformas

A Cidade das Artes, na zona oeste do Rio de Janeiro, foi palco nesta quinta-feira (28) de um dos debates mais estratégicos do Rio2C 2026. No espaço MinC Conecta, organizado pelo Ministério da Cultura, representantes do setor audiovisual discutiram o impacto da TV 3.0, os caminhos da inovação tecnológica e as políticas públicas necessárias para democratizar o acesso ao conteúdo nacional. O recado foi claro: o Brasil tem criatividade, mas precisa de estrutura — e de vontade política — para levar essa produção a todos os cantos do país.

O painel “Audiovisual em Toda Parte: Experiências de Promoção, Formação de Público e Direito de Acesso à Produção Brasileira”, mediado pelo advogado Fabio Cesnik, reuniu nomes centrais do ecossistema audiovisual brasileiro: a diretora-presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino; a diretora de Preservação e Difusão Audiovisual do Ministério da Cultura, Daniela Fernandes; e o diretor do Instituto Cine+, Paulo Feitosa.

TV 3.0: A VIRADA TECNOLÓGICA QUE PODE REDESENHAR A COMUNICAÇÃO PÚBLICA

No centro do debate esteve a transição para a TV 3.0 — tecnologia que representa uma evolução significativa da radiodifusão tradicional, com capacidade de transmitir conteúdo em altíssima definição, interatividade e personalização. Para a EBC, que opera a TV Brasil, as rádios públicas e a Agência Brasil, a mudança representa uma oportunidade histórica de ampliar alcance e relevância junto à população.

Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

Antonia Pellegrino defendeu que fortalecer a circulação da produção independente e ampliar o acesso em múltiplas plataformas são prioridades inadiáveis. Para a executiva, a transformação não é apenas tecnológica — é também política. A EBC, segundo ela, tem papel de protagonismo nessa transição, inclusive no que diz respeito à integração das plataformas públicas de audiovisual por meio da nova infraestrutura de radiodifusão.

A TV 3.0 promete transformar a relação entre emissoras públicas e o cidadão. Se implementada com visão estratégica, pode ser o elo que falta entre o conteúdo produzido com recursos públicos e o espectador que ainda não tem acesso a ele — seja por limitações geográficas, econômicas ou pela fragmentação das plataformas digitais.

A NOVA APOSTA DO GOVERNO PARA O AUDIOVISUAL NACIONAL

Daniela Fernandes apresentou os contornos do programa Tela Brasil, previsto para ser lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no sábado (31), durante o próprio Rio2C. A iniciativa é descrita como uma política estratégica para ampliar o acesso ao audiovisual brasileiro, fortalecer a produção nacional e estimular a formação de público — articulando inovação, inclusão e valorização da cultura do país.

O programa integra uma agenda mais ampla do MinC para o setor. Nesta edição do Rio2C, pela primeira vez, o Ministério da Cultura participa com um espaço próprio no evento — o que já sinaliza uma mudança de postura: em vez de observar o debate criativo de fora, o governo federal quer estar no centro da conversa sobre o futuro da indústria.

A aposta é alta. O Tela Brasil nasce em um momento em que o audiovisual nacional acumula reconhecimento internacional, mas ainda enfrenta gargalos sérios de distribuição e acesso interno. A pergunta que o programa precisa responder na prática é simples, mas complexa de executar: como fazer o conteúdo brasileiro chegar ao brasileiro?

CINEMA NACIONAL: CRIATIVO, MAS AINDA CARENTE DE VITRINE

Paulo Feitosa trouxe ao debate a perspectiva do setor exibidor e da formação de público. O programa Cinemas, que ele coordena, atua justamente nos pontos onde a cadeia produtiva do audiovisual mais patina: a circulação de obras e o incentivo à exibição em diferentes territórios do país.

O diagnóstico que emergiu do painel é preciso: o cinema brasileiro vive um ciclo virtuoso de criatividade e reconhecimento — obras nacionais têm conquistado festivais internacionais e acumulado prêmios — mas essa visibilidade ainda não se converte em acesso real para o público doméstico. Salas fechadas, concentração geográfica das estreias e a concorrência com o streaming internacional continuam sendo obstáculos concretos.

Fortalecer os canais de difusão, portanto, não é detalhe operacional. É condição estrutural para que o investimento em produção audiovisual gere retorno cultural e econômico para o país.

RIO2C COMO PALCO POLÍTICO E ESTRATÉGICO

O Rio2C reúne anualmente profissionais da indústria criativa no Rio de Janeiro e segue até domingo (31) na Cidade das Artes. Nesta edição, a presença robusta do MinC transforma o encontro em algo além de um festival de networking: vira arena de formulação de política cultural. A programação desta semana concentra debates sobre fortalecimento do audiovisual, inteligência artificial, economia criativa, cooperação internacional e políticas públicas de cultura.

O cenário é de otimismo cauteloso. O Brasil tem infraestrutura criativa, talentos reconhecidos e um mercado consumidor enorme. O que ainda falta — e o que os debates desta semana deixaram claro — é a construção de um ecossistema que conecte produção, distribuição e público de forma sustentável. A TV 3.0 pode ser uma peça-chave nesse quebra-cabeça. O Tela Brasil, outra. Mas o jogo, dizem os especialistas, só muda de verdade quando política pública e inovação tecnológica caminham juntas — e na mesma direção.

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