A escolarização entre crianças de 6 a 14 anos de idade atingiu 99,5% em 2024, com pouca variação quando se compara a 2016 (99,2%), mas chegou a apenas 93,4% entre jovens de 15 a 17 anos, abaixo do previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Das crianças na mesma faixa etária, 94,5% frequentavam o ensino fundamental, etapa escolar ideal para a idade; o índice é o menor desde a série histórica iniciada em 2016 e está abaixo dos 95% estabelecidos pelo Plano Nacional de Educação (PNE). Entre os jovens, 80,6% frequentaram ou concluíram o ensino médio, sendo essa a etapa escolar ideal para a faixa etária, uma alta em comparação aos índices pré-pandemia, mas ainda muito abaixo dos 85% estabelecidos pelo PNE.
Sílvia Colello, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da USP, explica as possíveis razões para esses índices estarem abaixo da média. “A gente tem que considerar a questão social, muitos desses jovens entram no mercado de trabalho mais cedo, ainda que seja um mercado informal, para ajudar as famílias. Isso é um fator que tende a tirar o aluno da escola, muitos jovens desistem da escola justamente para começar a trabalhar e sobreviver, isso é um ponto. O que mais me preocupa sendo educadora é o quanto a escola está distante da expectativa desses jovens, a ponto de muitos deles não entendem o que aquilo tem a ver com a sua vida.”
“Essa tradição conteudista de passar conteúdo não faz mais sentido em uma escola, não faz mais sentido em um mundo onde as informações estão disponíveis. A verdade é que a escola deveria mudar a sua forma de trabalhar e desenvolver estratégias nas quais o aluno fosse convidado a lidar com a informação, a descobrir, a criar, a se envolver com os objetos e com os conteúdos e tudo mais. Muitos jovens não entendem a escola como parte do seu projeto de vida, nós estamos muito acostumados com a ideia de que a educação prepara para a vida do trabalho, para a vida adulta, e isso não é mais uma certeza para o jovem, quando ele se desinteressa da escola, ele tende a escapar”, explica Sílvia.
Novo ensino médio versus atraso escolar
Mozart Ramos, pesquisador da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto (IEA-RP), acredita que ainda é cedo para calcular os impactos do novo ensino médio (NEM) nos índices citados. “O NEM chegou agora, no que se refere à sua implementação, nas três séries escolares que compõem esta última etapa da educação básica, se deparando ainda com muitas dificuldades quanto a essa implementação. Contudo, ao contrário dos estudantes no ensino fundamental, para os estudantes de 15 a 17 anos houve um aumento na taxa dos que estão cursando a série adequada.”
“Segundo os dados de 2025, 80,6% dos jovens dessa idade estavam frequentando ou já tinham concluído o ensino médio; em 2019 – antes da pandemia, esse porcentual era de 71,4%. Ainda que a taxa tenha avançado, ela permanece 4,4 pontos porcentuais abaixo da meta estabelecida pelo PNE, que previa ter ao menos 85% dos jovens dessa idade na série adequada até o fim de 2024. Os dados mostram ainda como a desigualdade racial impacta na permanência escolar. Para os jovens brancos, essa taxa é de 84,9%, enquanto para os pretos e pardos é de 77,8%”, reforça Ramos.

Por outro lado, Sílvia defende que as mudanças do NEM fizeram com que os alunos ficassem mais perdidos diante de um ensino médio “nebuloso”. “No momento em que o ensino médio se propôs a mudar, foram muitos movimentos diferentes, tenho a impressão que os alunos não entendem mais o que é. Antes, como era um modelo muito rígido, pelo menos os jovens sabiam o que é que a escola iria lhes oferecer, mas hoje fica um ambiente nebuloso, não entendem como se ajustar a esse novo projeto da escola.”
“É claro que muitos aderiram, a gente não pode generalizar, mas eu acho que esses jovens que escapam são jovens justamente que não se veem nesse modelo educacional. Acredito que a escola deveria se abrir mais, alguns exemplos seriam campeonatos esportivos, exposições artísticas, projetos sociais ou festivais de música, justamente para criar na escola um ambiente de convivência, discussão, diálogo, reflexão e um espaço no qual o jovem sentisse que ele pode criar, fazer e, principalmente em grupos colaborativos, participar de movimentos de pesquisa, trabalho etc.”, comenta Sílvia.
O que esperar para os próximos anos?
Sílvia explica que o cenário para os próximos anos é incerto, mas que é necessário um bom aproveitamento das novas tecnologias na educação. “Acredito que seja uma incógnita, essas mudanças do ensino médio tendem a se consolidar e eu, como educadora, tenho que ser otimista e achar que a escola vai melhorar, mas a verdade é que a profissão docente precisa ser valorizada e a escola precisa ser um ambiente mais compatível com o mundo em que a gente vive. A gente vive num mundo de comunicação e tecnologia, a escola tem dificuldade para assimilar todas essas possibilidades de comunicação e de pesquisa. Uma evidência disso foi a educação na pandemia, que mostrou o quanto as escolas estão despreparadas.”
“A minha expectativa é que as escolas possam assimilar mais todas essas tecnologias. Não que a tecnologia em si represente uma melhoria da escola, mas o bom aproveitamento da tecnologia, eu aposto nisso. Professores que possam começar a pensar em como aproveitar a tecnologia e os instrumentos que a gente tem hoje na sociedade, incorporar isso na escola em prol da reflexão, em prol da criatividade, em prol do fazer junto e do envolvimento do aluno. Eu acho que o grande desafio é a escola conseguir envolver o aluno nas suas ofertas de trabalho”, comenta.
Ramos ressalta a importância de modernizar a educação para que os alunos voltem para as escolas. “O grande desafio para vencer o atraso escolar passa pela oferta de uma escola de qualidade com equidade, em que todos os estudantes desenvolvam as habilidades esperadas ao longo de todo o percurso — da educação infantil ao ensino médio. Precisamos levar nossas escolas para o século 21, especialmente agora, com o advento do uso da inteligência artificial. O mundo mudou muito nessas duas últimas décadas. Estamos vivendo num cenário de transformações exponenciais, e não mais lineares. Como dizia Richard Hamming, matemático americano já falecido, professores deveriam preparar o aluno para o futuro do aluno, e não para o passado do professor. Se entendermos isso, vamos resolver o desafio do atraso escolar no Brasil”, finaliza.
**Por Jornal da USP


