Com as crianças em casa durante o mês de julho, por causa das férias escolares, cresce a procura dos pais por atividades que mantenham os pequenos entretidos e ajudem a gastar energia. No entanto, especialistas alertam que o ócio também é fundamental para o desenvolvimento infantil.
Embora uma agenda repleta de compromissos possa parecer positiva, o excesso de atividades pode contribuir para a sobrecarga e a ansiedade nos pequenos. Segundo especialistas, os momentos de tempo livre permitem que a criança lide com o tédio, estimule a imaginação, desenvolva a criatividade e a autonomia, além de favorecer o autoconhecimento.
De acordo com a psicóloga Rayany Melo, o tempo livre permite que a criança, por exemplo, tome pequenas decisões do cotidiano, como escolher um brinquedo, definir uma brincadeira, criar regras e encontrar soluções para desafios que surgem durante o brincar. Sem uma rotina totalmente preenchida, as crianças têm a oportunidade de criar histórias, imaginar cenários e descobrir novos interesses sem a interferência constante de adultos ou de atividades dirigidas.
A psicóloga também explica que o tempo livre contribui para o desenvolvimento emocional dos pequenos. Além disso, ela destaca que a criança precisa vivenciar, de forma gradual e adequada à sua idade, pequenos momentos de separação da pessoa responsável pelos cuidados.
“Desde os primeiros momentos de vida, o bebê precisa experimentar pequenas ausências da pessoa que cuida dele para começar a simbolizar sua presença. Esses momentos devem acontecer de forma gradual e compatível com seu desenvolvimento, para que ele possa construir a capacidade de estar só na presença de alguém”, pontuou.
O tédio pode estimular a criatividade
Ainda conforme a psicóloga, aprender a lidar com o tédio também faz parte desse processo. Em vez de ser encarado como algo negativo, esse sentimento pode estimular a criança a criar novas formas de brincar, desenvolver a imaginação, resolver problemas e fortalecer recursos internos para lidar com situações de frustração. Ao não depender constantemente da condução de um adulto, ela passa a desenvolver, progressivamente, autonomia, segurança e confiança para expressar sua personalidade, seus interesses e suas ideias.
“Durante as brincadeiras, a criança expressa medos, desejos, conflitos e fantasias de maneira simbólica, favorecendo seu equilíbrio psíquico. O brincar é uma atividade essencial para a saúde mental, pois permite integrar experiências internas e externas. Esse tempo de vazio também possibilita que a criança elabore suas emoções, compreenda seus limites e construa, pouco a pouco, sua própria identidade”, ressaltou Rayany.
No entanto, o tempo livre não deve ser desculpa para o uso excessivo de telas. A psicóloga frisa que, embora celulares, tablets e televisões possam fazer parte da rotina, passar muito tempo diante desses dispositivos oferece estímulos prontos e contínuos, reduzindo as oportunidades para que a criança imagine, crie e explore situações de forma espontânea. Por isso, o uso de telas deve ocorrer de maneira equilibrada, sem substituir o brincar livre.
“Mesmo quando parece que ela [a criança] não está fazendo nada ou apenas bagunçando a casa, pode estar organizando pensamentos, criando histórias, observando o ambiente e desenvolvendo sua imaginação. Além disso, esse tempo favorece a experiência da capacidade de estar só”, acrescentou.
Para proporcionar férias mais saudáveis, a orientação é que os pais busquem equilíbrio na rotina dos filhos. Passeios, viagens, atividades esportivas e outras experiências que estimulem o movimento e a convivência são importantes, mas não precisam preencher todos os dias nem todos os horários. Reservar momentos para o descanso, o ócio e as brincadeiras espontâneas também é essencial para promover o desenvolvimento psíquico, emocional e cognitivo da criança de forma saudável.
“É fundamental que a criança tenha momentos para brincar, descansar, desenhar, explorar a própria casa e viver o seu quarto como um espaço de criação. Em determinadas idades, esse tempo também pode ser aproveitado para reorganizar os brinquedos, escolher aqueles que já não utiliza e doá-los para outras crianças. Assim, ela aprende a cuidar do próprio espaço, desenvolve responsabilidade e também exercita a solidariedade”, disse a psicóloga.
Estratégias para estimular o ócio nas crianças
Para crianças mais agitadas, que têm dificuldade em permanecer sem uma atividade dirigida, a psicóloga Rayany Melo afirma que é possível estimular o tempo livre de forma gradual. Segundo ela, algumas estratégias ajudam os pequenos a aproveitar esse momento com mais independência e a descobrir novas formas de brincar. Entre as principais orientações, estão:
- Oferecer um ambiente seguro e acolhedor, com brinquedos, livros, papel, lápis e materiais que estimulem a criatividade;
- Resistir à necessidade de entreter a criança o tempo todo, permitindo que ela experimente momentos de tédio;
- Incentivar brincadeiras livres, sem definir regras ou resultados;
- Limitar o tempo de telas, preservando espaço para experiências criativas;
- Valorizar as iniciativas espontâneas da criança para que ela se sinta motivada a criar cada vez mais.
Outra orientação é incentivar a convivência da criança com familiares e outras pessoas de confiança durante as férias, pois favorecem a socialização, fortalecem os laços afetivos e proporcionam novas experiências que estimulam a autonomia, a imaginação e o desenvolvimento de forma natural.
“Existe um provérbio africano que diz: ‘É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.’ As férias podem ser uma excelente oportunidade para ampliar essa aldeia. Deixar a criança conviver com avós, tios, padrinhos, amigos e outras pessoas de confiança permite que ela experimente diferentes formas de vínculo, fortaleça suas relações afetivas e descubra que pode explorar o mundo com liberdade, segurança e criatividade”, finalizou.


