Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, os familiares das 62 vítimas puderam ler pela primeira vez a transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O intervalo chama atenção, mas a demora está ligada ao andamento da investigação da PF e ao sigilo que ainda envolve o inquérito.
O material continua sob sigilo da investigação. Segundo o advogado Luciano Katarinhuk, que representa as famílias das vítimas, a transcrição da cabine e o laudo pericial da PF ainda não foram anexados oficialmente aos autos porque seguem em análise pelos investigadores. Por esse motivo, o conteúdo ainda não pode ser disponibilizado às partes nem divulgado publicamente.
O prazo não é considerado incomum nesse tipo de investigação. Acidentes aéreos com múltiplas vítimas costumam gerar apurações longas, envolvendo perícias técnicas, análises de dados da aeronave, exames de equipamentos, depoimentos e outras diligências. Enquanto essas etapas estão em andamento, é comum que documentos sensíveis, como gravações e transcrições da cabine, permaneçam protegidos por sigilo para preservar a investigação e os direitos dos envolvidos.
As conclusões do laudo abriram novas frentes de investigação. De acordo com o advogado, o documento levou a PF a convocar novas pessoas para prestar depoimento, desta vez na condição de investigadas, e não apenas como declarantes. Enquanto essas diligências não forem concluídas, o delegado responsável decidiu manter o material sob análise antes de incorporá-lo ao inquérito.
Os familiares tiveram apenas um acesso controlado ao conteúdo. Em vez de receber cópias dos documentos, os representantes das vítimas participaram de uma reunião na qual a transcrição foi exibida em uma tela pelo delegado responsável pela investigação. Durante o encontro, os investigadores leram e explicaram os trechos considerados mais relevantes dos minutos finais do voo.
A reunião cumpriu um compromisso assumido com as famílias. Segundo Katarinhuk, havia um acordo para que os parentes conhecessem o conteúdo da caixa-preta antes de sua divulgação pública e antes da juntada aos autos. Durante o encontro, os familiares chegaram a iniciar a audição das gravações, mas optaram por interromper o procedimento diante do impacto emocional e seguir apenas com a leitura da transcrição.
A divulgação ainda depende do fim do inquérito. A expectativa, segundo o advogado, é que, após colher os depoimentos pendentes, o delegado apresente o relatório final e anexe o laudo aos autos. Somente depois dessa etapa, a assistência da acusação pretende pedir o levantamento do sigilo para que o conteúdo possa ser acessado pelas demais partes e divulgado.
As conversas reforçaram uma das principais linhas da investigação. A presidente da associação dos familiares, Fátima Albuquerque, afirmou que a transcrição indica que os pilotos mencionaram repetidamente a presença de gelo antes da queda da aeronave. A investigação apura, desde o início, se houve falha no sistema de degelo do avião e quais fatores contribuíram para o acidente.
Em 9 de agosto de 2024, o avião caiu em Vinhedo (SP), matando 62 pessoas. A aeronave havia decolado de Cascavel, no Paraná. Os quatro tripulantes e seus 58 passageiros morreram após o impacto do avião bimotor contra o quintal de uma casa em Vinhedo.
Aeronave despencou 13 mil pés (4.000 metros) em dois minutos. Na ocasião do sinistro, o registro de voo do Flight Radar mostra que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e a 4.000 pés (1,22 km) às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido pela plataforma. O avião caiu cerca de 20 minutos antes de pousar e atingiu casas de condomínio residencial.
O piloto do avião, Danilo Santos Romano, comentou sobre uma falha no sistema antigelo da aeronave. A informação foi divulgada em relatório preliminar apresentado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), da FAB (Força Aérea Brasileira), no dia 6 de setembro. A suposta falha ainda está sendo apurada durante a investigação.
Todas as pessoas que estavam a bordo do ATR 72-500 morreram. A maioria das vítimas era de Cascavel, de onde saiu a aeronave.
Reconhecimento dos corpos ocorreu por análise das arcadas dentárias, DNA e coleta de impressões digitais. Todas as pessoas morreram devido ao impacto do avião com o solo. Com isso, mortes foram instantâneas por politraumatismo e, só depois, o avião explodiu. Apesar disso, os corpos não foram completamente carbonizados.
Segundo o relatório, as escalas não tinham tempo suficiente de descanso para a tripulação. A auditoria concluiu ainda que a empresa não realizava controle efetivo da jornada de trabalho dos funcionários, descumpria o tempo de descanso estabelecido na Lei dos Aeronautas e violou as cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho voltadas à prevenção da fadiga.
Essas irregularidades levaram os fiscais a lavrar dez autos de infração, com multas que somam cerca de R$ 730 mil. A Voepass/Passaredo também foi notificada por não recolher mais de R$ 1 milhão do Fundo de Garantia dos trabalhadores. Cabe recurso das infrações.
A Agência Nacional de Aviação Civil cassou a certificação de operação da empresa em junho de 2025. Agência, porém, já havia suspendido as operações aéreas da Voepass desde março do mesmo ano. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em abril de 2025.
LUCAS ALMEIDA / Folhapress


