Sam Neill, o versátil ator neozelandês que participou de mais de 150 produções ao longo de uma carreira de cinco décadas, e talvez mais conhecido por seu papel de destaque como o aventureiro paleontólogo Dr. Alan Grant, na saga “Jurassic Park”, morreu nesta segunda-feira (13) em Sydney. Ele tinha 78 anos.
Sua família anunciou a morte em uma publicação no Instagram, mas não forneceu mais detalhes. Neill recebeu diagnóstico de linfoma de células T angioimunoblástico em março de 2022 e vinha sendo tratado há anos. Sua família disse no comunicado que ele estava “livre do câncer” quando morreu.
Nascido na Irlanda do Norte e criado na Nova Zelândia, Neill, cuja carreira de ator começou no final dos anos 1960, combinava uma qualidade crível de homem comum com boa aparência rústica e um sotaque difícil de identificar. Ele foi escalado para dezenas de produções que abrangiam gêneros, formatos e continentes.
Neill chamou a atenção internacional pela primeira vez com o drama de época australiano de 1979 “My Brilliant Career”, interpretando um fazendeiro de fronteira. Os críticos o aclamaram por interpretações nuançadas, descrevendo sua “brusquidão enigmática” em um papel e sua “suavidade paternal tingida de uma tristeza digna” em outro.
Seus créditos incluíam os filmes neozelandeses “O Piano” (1993) e “Hunt For the Wilderpeople” (2016); os blockbusters de Hollywood “Jurassic Park” (1993) e suas sequências, e “Thor: Amor e Trovão” (2022); e duas temporadas da série de televisão britânica “Peaky Blinders”.
“Gostaria de pensar que sou capaz de sugerir ambiguidades e complexidades nas pessoas que interpreto, porque acho que todos nós temos aspectos ocultos ou qualidades contraditórias”, disse ele ao The Dominion Post, um jornal neozelandês, em 2007. “Acho que é isso que nos torna interessantes como seres humanos, e é isso que torna os seres humanos interessantes de interpretar.”
O primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, lamentou a morte de Neill, que, segundo ele, “estrelou tantas histórias australianas queridas” e “conquistou um lugar especial nos corações australianos”.
“Irônico e seco, pensativo e lacônico, Sam lutou contra a doença com a mesma dignidade, humor e convicção que deram força a cada uma de suas atuações”, escreveu Albanese nas redes sociais.
BIOGRAFIA
Nigel John Dermot Neill nasceu de Dermot Neill, um neozelandês que serviu como oficial do exército britânico, e sua mulher inglesa, Priscilla Neill, na mesa da cozinha deles em Omagh, uma cidade no Condado de Tyrone, na Irlanda do Norte, em 14 de setembro de 1947.
Aos 7 anos, ele se mudou com a família para a bucólica ilha Sul da Nova Zelândia, onde frequentou a Cashmere Primary School antes de ser interno na Medbury School e no Christ’s College, uma das escolas mais elegantes da Nova Zelândia, em Christchurch.
Lá, ele era um “estudante muito comum” que era “irremediavelmente preguiçoso”, escreveu em suas memórias de 2023 “Did I Ever Tell You This?”, e que apareceu em algumas produções escolares.
Neill enfrentou obstáculos entre seus novos colegas de classe: uma gagueira na infância, o que ele percebia como um sotaque britânico embaraçosamente pomposo, e o nome “Nigel”, que lhe foi dado ao nascer. “Chegar em um pátio de escola bastante hostil em uma escola primária da Nova Zelândia com uma voz afetada e Nigel como nome era pedir por problemas”, escreveu.
Aos 11 anos, mudou seu nome para Sam, inspirando-se em personagens de filmes de faroeste. Foi, acrescentou, “provavelmente a melhor decisão que tomei na minha vida. Sam é fácil de dizer, soa amigável, soa um pouco masculino e tem um toque de Labrador”.
Ele frequentou a Universidade de Canterbury em Christchurch antes de se transferir para a Universidade de Victoria em Wellington, onde se formou em 1970 com bacharelado em literatura inglesa. “Atuar era praticamente a única coisa em que eu era bom na escola”, disse mais tarde ao The Chicago Tribune.
Começou a trabalhar como ator de teatro, atuando inicialmente com a Downstage Theater Company por NZ$35 por semana e um prato de lasanha todas as noites. Depois viajou pelo país com o New Zealand Players Drama Quartet, apresentando Shakespeare e outras grandes obras teatrais para crianças em idade escolar.
Em busca de emprego mais estável, Neill ingressou na National Film Unit da Nova Zelândia, uma produtora estatal, onde dirigiu uma série de curtas-metragens documentários. Durante esse período, apareceu em “Ashes”, um curta-metragem de 1975, e como protagonista no thriller de 1977 “Sleeping Dogs”, que se tornaria o filme de maior bilheteria da Nova Zelândia na época.
Enquanto promovia “Sleeping Dogs” na Austrália, Neill foi escalado para “My Brilliant Career”, pelo qual recebeu aproximadamente três vezes seu salário da National Film Unit. Seria a primeira de uma série de produções australianas para ele. Neill rapidamente conseguiu um agente, pediu demissão do emprego na Nova Zelândia e se mudou para Sydney. A estrela britânica de cinema e teatro James Mason, um admirador desde o início, também se ofereceu para ajudar a estabelecer sua carreira internacional.
Nos anos seguintes, Neill apareceu em longas-metragens na Europa e América do Norte antes de fazer sua estreia em Hollywood, interpretando o Anticristo em “A Profecia 3: O Conflito Final” em 1981.
Ele foi indicado a dois Emmys, pela minissérie de 1998 “Merlin” e pelo documentário de 2017 “New Zealand: Earth’s Mythical Islands”, que narrou, e três Globos de Ouro, por atuações nas séries de televisão “Reilly: Ace of Spies” (1983), “One Against the Wind” (1992) e “Merlin”.
Ele foi nomeado Companheiro Distinto da Ordem de Mérito da Nova Zelândia em 2007, tornando-se elegível para o título de cavaleiro. Em 2009, recusou a honraria, dizendo ao The Sydney Morning Herald: “Toda modéstia à parte, acho a ideia de um título para mim mesmo grandioso demais neste momento da minha vida.”
Neill acabou voltando atrás nessa decisão, tornando-se “Cavaleiro Companheiro” em 2022, o que lhe permitiu usar o título de Sir.
Apesar de seu sucesso internacional, manteve laços estreitos com a Nova Zelândia, passando a maior parte do tempo em Central Otago, onde a partir de 1993 começou a produzir vinho sob o rótulo Two Paddocks.
Seus vinhos eram geralmente bem avaliados pelos críticos, mas ele tentava adotar uma abordagem democrática em relação aos preços, dizendo ao The Guardian: “Eu odiaria pensar que meu vinho estava sendo bebido apenas por incorporadores imobiliários.”
Neill deixa seus irmãos, Michael, um acadêmico, e Juliet, professora de teatro, e seus filhos, incluindo um filho de seu relacionamento de 11 anos com a atriz Lisa Harrow e duas filhas de seu casamento com a maquiadora Noriko Watanabe, de quem se separou em 2017.
Redação / Folhapress


