A coluna Saber Além da Vida é mais um espaço em que Geraldo Lemos Neto e João Pedro Prado utilizam para responder perguntas que ecoam na alma e respostas que não cabem apenas na razão. A partir de histórias enviadas para o programa de mesmo nome exibido pela Thmais, e experiências pessoais, eles conduzem reflexões e nos brindam com mais esse espaço de encontro entre o visível e o invisível, entre a experiência humana e a dimensão espiritual.
Como foi seu início no Espiritismo?

GERALDINHO – Pelo lado materno, sou integrante de uma família espírita natural da cidade de Pedro Leopoldo, Minas Gerais, a mesma cidade natal de Chico Xavier. Alguns integrantes da família Machado já eram espíritas antes mesmo de Chico Xavier, no início do século XX, como meus tios avós José Flaviano Machado, ou simplesmente “Zeca”, e Adélia Machado de Figueiredo.
Minha avó Carmen Machado dos Santos foi colega de grupo escolar de Chico Xavier em sua meninice. Outros tios avós muito queridos conviveram de perto com o desabrochar da mediunidade de Chico Xavier nos primeiros tempos como João Machado Sobrinho, Nair Machado Paschoal e Walter Machado. Temos cartas de Chico Xavier em que ele afirma que minha bisavó Georgina Cândida Machado era a melhor amiga de sua mãe, Maria de São João de Deus. Quando publicamos a biografia CHICO XAVIER – MANDATO DE AMOR pela União Espírita Mineira, em 1992, Chico nos revelou que a casa onde ele nasceu era uma casa geminada, onde metade pertencia ao seus pais e a outra aos meus tios bisavôs Eliseu e Cilia Correa.
E como você o conheceu pessoalmente?
GERALDINHO – Sendo de uma família muito próxima a Chico Xavier desde muito tempo, os seus casos, contados em reuniões familiares, sempre me comoveram muito. Então comecei a escrever-lhe cartas de agradecimento nas quais apenas assinava “um amigo” sem me preocupar em registrar o remetente, por imaginá-lo uma pessoa muito ocupada. Em Outubro de 1981, chamado por minha tia avó Nair Machado Paschoal, fui a São Paulo colaborar como voluntário num evento no Centro Espírita União onde Chico lançaria 2 novos livros de sua psicografia. Participei ao lado dela daquela noite inesquecível, trabalhando na arrumação dos livros que Chico autografaria, das 8 horas da noite até as 7:30 horas do dia seguinte, portanto quase 12 horas de serviços ininterruptos. Me impressionou assistir a figura de Chico Xavier com carinho extremo recebendo milhares de visitantes, conversando com eles, estimulando-os em nome de Jesus e ofertando-lhes rosas e livros. Quando já não mais havia ninguém na fila, às 7:30 horas chegou a nossa vez de abraçá-lo. Fiquei estupefato quando Chico chamou-me de Geraldinho (conforme todos em família me chamam) e revelar que gostava muito de receber as minhas cartinhas, que muito lhe alegravam, mas que não entendia o por quê de duas coisas, do fato de eu não as assinar e da razão de não colocar o endereço do remetente para que ele pudesse me responder. Não pude dizer coisa alguma já que as lágrimas me rolavam pelas faces. Em seguida Chico ofertou-me um buquê de rosas e me convidou a visitá-lo em Uberaba. Não preciso dizer que 15 dias depois lá estava eu em Uberaba para conhecer o seu trabalho extraordinário de assistência e consolação em nome da Doutrina Espírita.
A partir daí desenvolvemos uma amizade que para mim foi um verdadeiro tesouro em minha vida. Aconteceu ainda que me casei em 1986 com a irmã de Vivaldo da Cunha Borges, Eliana, e ele Vivaldo morava junto com Chico em Uberaba e fazia a diagramação de todos os seus livros. Passei então a ir mais frequentemente a Uberaba, hospedando-me na casa do Chico, com quem pude desfrutar de longas conversas nas madrugadas. Nunca me esquecerei do amado amigo, com quem aprendi a amar Jesus e a raciocinar que a Doutrina Espírita sendo a Doutrina do Cristo Redivivo veio de Jesus para o coração do povo sofredor e aflito, sobrecarregado e sedento de novas luzes.
Como era a intimidade com o Chico? Quais os assuntos que interessavam Chico Xavier ? Ele era bem humorado ?
GERALDINHO – Quando convivi mais de perto na intimidade de sua casa de Uberaba, por várias ocasiões assistíamos juntos as fitas em VHS de filmes que faziam a alegria de Chico como foi o caso de Ghost, Jornada nas Estrelas e muitos mais.
Conversávamos longamente nas madrugadas sobre os temas mais interessantes, com ele sempre nos contando casos curiosos e impressionantes que ocorreram com ele ao longo de sua vida. Ele era de um bom humor extraordinário, sempre pronto a nos trazer notas de alegria e reconforto. Eu diria que Chico tinha os pés no chão, o coração junto de todos nós em atenções, cuidados e afetos puros, e os olhos fixados nas estrelas do firmamento! Acompanhávamos às vezes as suas tarefas do correio, quando o ajudávamos a subscritar caixinhas de mensagens endereçando-as aos seus amigos espalhados por todo o Brasil. Também Chico psicografava em casa usando um gravador com fitas de música clássica que nós, os amigos, lhe ofertávamos. Algumas delas de nossa própria execução ao piano. Ele preciava muito os compositores clássicos românticos como Beethoven, Lizt, Chopin, Mendelsson, Brahms e também os mais recentes Sibelius, Mahler, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaréh, e Heitor Villa Lobos, e também as músicas de canto popular e uma vez ele nos contou que a sua música preferida era o Hi Lily, Hi Lo de um compositor norte-americano. Chico também apreciava muito a música popular brasileira, com grande simpatia por Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo.

Quanto ao cinema meus tios avós costumavam relatar que Chico adorava ir ao cinema de Pedro Leopoldo acompanhado dos amigos e depois se reuniam todos em sua casa ou na casa de André Luiz seu irmão para os comentários. Era de se ver Chico pedindo a meu tio avó Walter Machado, que sempre teve dotes artísticos, para que ele desenhasse os artistas de Holywood, no que era atendido com prazer.
Todas as pessoas que foram ligadas ao coração de Chico Xavier nas cidades de Pedro Leopoldo, Belo Horizonte, Uberaba, São Paulo e Rio de Janeiro atestam que com cada uma delas Chico partilhou o seu amor, a sua bondade natural, a sua alegria espontânea, a sua solidariedade incondicional. Todos são unânimes em afirmar isto, que o amor ao trabalho, a dedicação ao Evangelho de Jesus e à Doutrina Espírita foram suas características mais marcantes, e em especial a sua caridade aliada a uma disciplina impecável para com o serviço da consolação e da esperança. Chico Xavier espalhava alegria por onde passava, com seus casos e anedotas, a rir-se de si mesmo. Ao mesmo tempo era de se ver sua seriedade quando os postulados espíritas cristãos estavam em jogo. Firmeza de caráter e coerência de sentimentos com a luz da razão esclarecida! Para nós um verdadeiro Apóstolo do Cristo em tempos modernos


