Amizades improváveis da MPB (Parte 2)

Depois de relembrarmos amizades da MPB como Rita Lee e Elis Regina, e Chico Buarque e Toquinho, chegou a hora de conhecer outras histórias de artistas da MPB que você nem imagina que firmaram uma amizade tão grande!

Algumas começaram por acaso. Outras surgiram da admiração mútua. Todas, porém, atravessaram o tempo e deixaram marcas na música brasileira. Hoje, no Dia do Amigo, a gente relembra mais 5 amizades improváveis da música popular brasileira.

1 – Cazuza e Sandra Sá

Muito antes de se tornar um dos maiores nomes do rock brasileiro, Cazuza encontrou em Sandra Sá uma amizade que atravessaria toda a década de 1980, até a sua partida, em 1990.

Os dois compartilhavam não apenas o amor pela música, pela liberdade e pela intensidade com que encaravam a vida, mas Sandra também era muito próxima dos pais do cantor, Lucinha Araújo e João Araújo, e passou a frequentar a casa da família.

Em 1980, Sandra foi inscrita pelos pais do Cazuza no Festival MPB, da Rede Globo, no qual classificou a sua música: “Demônio Colorido”, que ficou entre as dez finalistas.

Esse foi o pontapé inicial para uma carreira de sucesso de uma das maiores vozes da música brasileira. Sandra Sá passou a ser  conhecida no Brasil inteiro. Logo em seguida, ela foi contratada pela gravadora RGE, onde Cazuza trabalhava como divulgador. 

Anos depois, o primeiro grande show da banda de Cazuza, Barão Vermelho, aconteceu na abertura de um show de Sandra, no Morro da Urca.

A amizade ficou ainda mais evidente quando Cazuza foi escolhido como padrinho de Jorge de Sá, único filho da cantora, nascido em 1984. O vínculo entre eles era tão forte que Sandra acompanhou de perto a luta do amigo contra a AIDS e permaneceu ao lado da família mesmo após sua morte.

Sandra gravou diversas canções de Cazuza – como “Blues da Piedade”, “Brasil e “Eu Quero Alguém” e, até hoje, costuma homenageá-lo em entrevistas e apresentações, lembrando o amigo como um dos artistas mais sensíveis de sua geração.

2 – Gal Costa e Marília Mendonça

Quase cinquenta anos separavam o início das carreiras de Gal Costa e Marília Mendonça. Ainda assim, as duas desenvolveram uma relação de enorme admiração e carinho.

Gal via em Marília uma das compositoras mais importantes da nova geração da música brasileira. Tanto que decidiu gravar “Cuidando de Longe”, composição da cantora goiana – e em dueto com ela – apresentada no álbum “A Pele do Futuro”, de 2018.

Marília ficou profundamente emocionada ao ouvir sua música na voz de uma das maiores intérpretes da história da MPB e fez questão de declarar publicamente toda a sua admiração por Gal.

Embora tenham convivido por poucos anos, deixaram registrada uma bonita amizade entre duas gerações da música brasileira, provando que o talento não conhece fronteiras de idade ou de estilo.

Na época da gravação da canção, Marília declarou sobre ela e Gal: “A nossa música tem uma coisa parecida, por mais que as pessoas falem ‘Parecida? Marília Mendonça e Gal Costa?’. Que é a coisa de ser uma música acessível, ela fala sempre dos sentimentos da mulher e ela conversa com o povo de verdade, sem ficar floreando demais sem ficar inventando.”

Gal também falou em entrevista que elas tinham um estilo muito parecido de cantar e interpretar: “A Marília tem um jeito de cantar áspero, meio rock’n roll. Ela é o rock’n roll da sofrência”.

3 – Emicida e Wilson das Neves

A amizade entre Emicida e Wilson das Neves nasceu da admiração de um jovem rapper paulistano por um dos maiores nomes do samba carioca.

Muito antes de o rap ocupar o espaço que tem hoje, e de Emicida ser esse gigante da nossa música, ele já era fã de Wilson das Neves e tinha nele –  um dos maiores bateristas e percussionistas da história da música popular brasileira – um grande mestre.

Os dois artistas se aproximaram e o carinho e admiração se tornaram mútuos. Em 2013, Wilson das Neves fez uma participação na música “Trepadeira”, do álbum “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”, de Emicida

Já no São Paulo Fashion Week de 2016, Emicida – juntamente com seu irmão Fióti e com o estilista João Pimenta – lançaram na sua marca Laboratório Fantasma uma coleção de roupas intitulada LAB. Wilson das Neves participou do desfile na edição seguinte, com o tema era “herança”, e as roupas utilizavam influências do rap e do samba, com bordados da mãe de Emicida e Fióti, Dona Jacira. 

Em 2019, no seu famoso álbum “Amarelo”, Emicida incluiu uma canção em homenagem ao amigo, que faleceu em 2017: “Quem Tem Um Amigo Tem Tudo…,”, que conta com a participação de Zeca Pagodinho e foi composta pelo rapper a partir de uma melodia enviada para ele em fita cassete, por  Wilson das Neves, antes dele falecer.

Na música, Emicida cita o bordão “Ô, sorte!”, a mais conhecida pérola de Wilson Das Neves, que ele repetia sempre, nas mais diversas situações. Mas a autoria da expressão nem é dele: foi uma apropriação de uma frase dita por seu amigo, também sambista, Roberto Ribeiro, quando este descobriu que Wilson também era, assim como ele, da Império Serrano

A partir dali, sempre que os dois se encontravam, diziam em uníssono “Ô sorte”. E, dali para a vida, a frase seguiu com o baterista.

Deste encontro entre a sorte, a música, Emicida e Wilson das Neves, nasceu uma das mais belas músicas sobre amizade da nossa história: “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”.

Emicida já havia composto outra canção em homenagem a Wilson das Neves: “Ô Sorte!”, que conta com a participação com o baterista e percussionista.

4 – Ney Matogrosso e Rita Lee

Poucos artistas representaram tão bem a liberdade criativa da música brasileira quanto Ney Matogrosso e Rita Lee.

A afinidade entre os dois nasceu ainda na década de 1970, quando ambos desafiavam padrões estéticos e comportamentais em pleno período da ditadura militar. Com personalidades irreverentes, transformaram a ousadia em marca registrada e construíram uma amizade que atravessou décadas, até a partida de Rita, em maio de 2023.

Foi Ney Matogrosso quem apresentou Rita Lee a seu grande amor, o compositor e multi-instrumentista Roberto de Carvalho, quando ela já era uma das maiores artistas do Brasil.

Excelente instrumentista, Roberto trabalhou com nomes como Jorge Mautner e Arnaldo Antunes, mas foi em meados do ano de 1975 que se tornou guitarrista de Ney Matogrosso

Na época, Ney estava gravando seu segundo álbum de estúdio, “Bandido”, que continha a canção “Bandido Corazón”, de autoria de Rita Lee, um dos maiores sucessos da carreira do cantor, música que ajudou a alavancar ainda mais a sua carreira solo. 

Ao ouvir a faixa, a roqueira se surpreendeu com o som da guitarra e do teclado de Roberto de Carvalho e ficou interessada em conhecer o músico, responsável também por aquele arranjo.

A cantora foi assistir a um show do amigo e o convidou para jantar em sua casa, dizendo que Ney podia levar alguém:

“Eu já sabia quem ela queria que eu levasse. Eu sabia mesmo. E levei”, conta o cantor, relembrando as intenções da amiga. “Foi instantaneamente, os dois se juntaram, já sentaram no piano, e eles ficaram lá, os dois, tocando piano, já começaram a compor. Aí eu disse assim: ‘bom, acho que eu estou sobrando aqui, né?’. Fui embora, deixei eles lá, e pronto, e ali a história tomou o rumo que todo mundo conhece. E eu fico muito orgulhoso de ter feito isso”, completou Ney.

Na época, Rita tocava acompanhada da banda Tutti Frutti, e Roberto entrou no conjunto como tecladista em 1976, tornando-se – a partir daí – parceiro de Rita Lee na música e na vida. 

Depois disso, Ney gravou outras inúmeras composições de Rita com muito sucesso, como:

  • Doce Vampiro
  • Balada do Louco (parceria dela com Arnaldo Baptista)
  • Jardins da Babilônia (de Rita Lee)
  •  Banho de Espuma (parceria com Roberto de Carvalho)
  • Corista de Rock (parceria com Luiz Carlini)

5 – Elza Soares e Caetano Veloso

Dois gigantes da nossa música, Elza Soares e Caetano Veloso desenvolveram uma das relações de maior respeito da música brasileira.

Caetano sempre fez questão de destacar Elza como uma das maiores intérpretes que o Brasil já produziu. Já Elza nunca escondeu a admiração pelo compositor baiano, chamando-o de gênio e celebrando sua capacidade de reinventar a música popular brasileira.

Em meados dos anos 80, por conta dos acontecimentos em sua vida pessoal, Elza Soares passou por momentos de baixa na carreira, pois não queria cantar mais apenas samba, queria cantar o que sentisse vontade. 

Se revitalizou em 1984, quando Caetano Veloso a convidou para participar do seu disco Velô, gravando com ele a música “Língua”. No ano seguinte, Caetano e Lobão produziram um LP de Elza, que contava, entre outras, com faixas da autoria da cantora, como “Somos Todos Iguais”, música que dá nome ao disco, e “Exagero”.

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