A população brasileira está em dúvida se acompanha os jogos da Copa do mundo ou as malandragens daqueles que estão nos bastidores políticos. Estes sabem disso. Enquanto muitos brasileiros se distraem ao acompanhar os jogos, outros fazem prognósticos, consultam leitores de mão, videntes, profetas e até animais que são capazes de antecipar resultados.
Urso, polvo, canguru e até a capivara Capitu são chamados como verdadeiros oráculos do esporte bretão. A grande pergunta: quem vai levar a taça? Os candidatos à presidência da República aproveitam para juntar equipes e apoiadores para quando a Copa terminar saírem queimando o asfalto para conquistar eleitores e ganhar o poder. Se o futebol tupiniquim levar o caneco, tanto governistas como opositores tentarão levar vantagem na euforia popular que, certamente, vai estourar nas cidades brasileiras. Prefeitos e governadores até anunciam que será mais um ponto facultativo o dia em que a seleção canarinho entrar no gramado.
Os espaços nos jornais são muito semelhantes. As primeiras capas mostram fotos de gols e entrevistas com os craques da seleção brasileira que disputam o campeonato mundial da FIFA. Sobra pouco espaço para a troca de farpas entre o candidato da esquerda e o da direita pela presidência da República. Um chama o outro de fascista, que responde dizendo que o outro é comunista. São as duas tendências políticas mundiais que contaminam os partidos políticos brasileiros e parte do eleitorado que acompanha o noticiário.
O arsenal mais pesado é acumulado para ser lançado contra o oponente no momento certo, ou seja, depois do jogo final, onde deverá estar a seleção canarinho. Cogitar que eles não estarão lá é ser considerado um lesa-pátria, um traidor, um Joaquim Silvério dos Reis.
O mês de julho marca o jogo final da Copa do mundo da FIFA e o início da corrida para a presidência da República. É impossível separar uma coisa da outra. Os candidatos aguardam nervosamente o embate final, porque todos querem tirar proveito político da euforia popular, caso o Brasil conquiste o caneco. A largada para a campanha eleitoral acontecerá quando o árbitro der o apito final. Fecham-se as cortinas, abrem-se outras, parafraseando um locutor entusiasmado. Basta um empate e a seleção canarinho sai de um estádio com 200 mil pessoas para um grande carnaval patriótico. Só esqueceram de combinar com os russos, ou melhor, com os uruguaios.
A final Brasil e Uruguai termina com a vitória dos uruguaios, por dois a um no chamado Maracanaço. Eles nem respeitaram que já foram parte do império do Brasil. Já os dois candidatos à presidência, Getúlio Vargas, apoiado pelo PTB e forças de esquerda, e Eduardo Gomes, pelo PSD e partidos da direita, partem para o confronto final na urna. Em outubro de 1950, o ex-ditador abiscoita quase 49% dos votos e o Brigadeiro amarga menos de 30%. Perde o futebol, ganha o populismo.


