Poucos escritores brasileiros tiveram a capacidade de transformar cenas do cotidiano em poesia como Mário Quintana. Conhecido como o “poeta das coisas simples”, o autor gaúcho construiu uma obra marcada pela linguagem acessível, pela sensibilidade e por um olhar atento para aquilo que muitas vezes passa despercebido: uma lembrança da infância, uma rua silenciosa, uma conversa imaginária, a passagem dos anos ou um instante de beleza escondido na rotina. Tudo isso está presente em seus poemas.
Hoje, no dia do aniversário do poeta, trouxemos 5 poemas para você conhecer melhor Mário Quintana.
Sobre Mário Quintana
Mário de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 30 de julho de 1906, há exatos 120 anos. Ainda jovem, mudou-se para Porto Alegre, onde estudou no Colégio Militar e publicou seus primeiros textos literários. Ao longo da vida, além de poeta, trabalhou como jornalista e tradutor, aproximando leitores brasileiros de grandes obras da literatura mundial.
Sua estreia em livro aconteceu em 1940, com “A Rua dos Cataventos”, obra que já revelava uma das principais características de sua escrita: a capacidade de unir musicalidade, simplicidade e reflexão.
Ao longo das décadas seguintes, Quintana publicou livros como “Canções”, “Sapato Florido”, “Espelho Mágico” e “Caderno H”, construindo uma poesia que transitava entre versos, pequenos textos em prosa e pensamentos breves carregados de significado.
Sem se prender a uma única escola literária, Mário Quintana criou uma voz própria. Sua poesia fala sobre o tempo, a memória, a infância, o amor, a morte e os mistérios da existência com uma mistura rara de encanto e ironia. Talvez seja justamente essa proximidade com os sentimentos humanos que faz com que seus versos continuem tão atuais.
Em homenagem ao poeta que encontrou grandeza nas coisas pequenas, reunimos 5 poemas essenciais para conhecer sua obra.

1 – O Auto-Retrato
(Apontamentos de História Sobrenatural – 1976)
Um dos poemas mais conhecidos de Mário Quintana, “O Auto-Retrato” revela a forma como o poeta enxergava a própria imagem: não como uma fotografia fixa, mas como uma construção feita de lembranças, imaginação e diferentes versões de si mesmo. É um retrato íntimo e cheio de delicadeza.
No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!
2 – Poeminho do Contra
(Caderno H – 1973)
Com seu humor característico, Quintana transforma a resistência diante das dificuldades em poesia. O poema se tornou um dos símbolos de sua personalidade literária: uma voz independente, irônica e capaz de responder às adversidades com leveza.
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

3 – Canção da Primavera
(Canções – 1946)
Presente no livro “Canções”, o poema mostra a relação de Quintana com a musicalidade das palavras. A primavera aparece como uma imagem de renovação, movimento e encantamento, em versos que aproximam poesia e música.
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
4 – As Mãos do Meu Pai
(Esconderijos do Tempo – 1980)
Neste poema, Quintana transforma uma lembrança familiar em uma reflexão sobre afeto, passagem do tempo e memória. O olhar para as mãos do pai revela como pequenos detalhes podem carregar histórias inteiras.
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…
5 – A Rua dos Cataventos
(Rua dos Cataventos – 1940)
Parte do livro de estreia do poeta, publicado em 1940, o poema apresenta elementos que se tornariam marcas de sua obra: a observação do cotidiano, a atmosfera contemplativa e a capacidade de encontrar poesia em lugares aparentemente comuns.
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

A poesia que permanece
Mário Quintana faleceu em Porto Alegre, em 5 de maio de 1994, deixando uma obra que permanece entre as mais queridas da literatura brasileira. Sua escrita continua lembrando que a poesia não está apenas nos grandes acontecimentos, mas também nos pequenos instantes que formam a vida.
Porque, como Quintana ensinou ao longo de sua trajetória, olhar para o mundo com mais atenção talvez seja a primeira forma de transformá-lo em poesia.

