A recomendação para quem sofre uma lesão no menisco mudou nos últimos anos: em vez de retirar parte do tecido por rotina, a prioridade passou a ser preservar o máximo possível da estrutura, sempre que isso for seguro. A ortopedista Camila Cohen Kaleka explica que essa mudança busca proteger o joelho a longo prazo e reduzir o risco de desgaste precoce da articulação.
O menisco é uma espécie de “almofada” dentro do joelho. Ele ajuda a absorver impactos, distribui melhor o peso do corpo, contribui para a estabilidade e protege a cartilagem. Por isso, a decisão sobre tratamento não deve considerar apenas a dor do momento, mas também o que pode acontecer com o joelho nos anos seguintes.
Durante muito tempo, a conduta mais comum era remover o pedaço lesionado. A lógica era direta: se o tecido estava rasgado e provocava dor, tirava-se o fragmento. Com o acompanhamento de longo prazo, porém, ficou mais evidente que perder menisco aumenta a sobrecarga sobre a cartilagem e pode acelerar o desgaste do joelho.
Do cortar ao preservar
A ortopedia passou a reduzir indicações de retirada do menisco e a dar mais espaço a estratégias de preservação. Quando a cirurgia é necessária, a preferência, sempre que possível, é reparar o menisco com sutura, em vez de remover parte dele.
Segundo Camila Cohen Kaleka, essa abordagem é especialmente relevante para pacientes jovens, atletas e pessoas com lesões traumáticas recentes. “Preservar o menisco, quando dá para preservar, ajuda a manter melhor a função do joelho e pode reduzir o risco de degeneração no futuro”, afirma a médica.
Isso não significa que toda lesão seja “costurável”. O tipo de rasgo, a localização, o tempo desde a lesão e a qualidade do tecido são fatores que pesam na escolha.

Nem toda lesão precisa operar
Outro ponto que ganhou força na prática clínica é que muitas lesões degenerativas do menisco — mais comuns com o envelhecimento e o desgaste natural do joelho — nem sempre melhoram com cirurgia.
Nesses casos, estudos recentes indicam que o tratamento conservador pode ser suficiente em mais da metade dos pacientes, com resultados semelhantes aos da cirurgia, principalmente quando não há travamento do joelho. A abordagem costuma incluir fisioterapia, fortalecimento muscular, controle de peso e ajuste de atividades do dia a dia.
A dor também pode ter mais de uma origem. Em muitos pacientes, o incômodo não vem apenas do menisco, mas de uma combinação de fatores como sobrecarga, inflamação, fraqueza muscular e sinais iniciais de artrose.
Por isso, a avaliação precisa ir além do exame de imagem. “Operar uma imagem de ressonância é um erro mais comum do que parece e pode ser evitado com uma boa conversa e examinando o paciente”, alerta Camila Cohen Kaleka.
Risco de desgaste no longo prazo
Retirar parte do menisco pode aliviar os sintomas em situações bem indicadas, mas também diminui a capacidade do joelho de absorver impacto. Com menos menisco, a cartilagem recebe mais carga — e isso aumenta o risco de artrose ao longo dos anos.
Na prática, a decisão costuma ser individualizada. Em lesões traumáticas instáveis ou com bloqueio articular, a cirurgia pode ser necessária. Já nas lesões degenerativas, a tendência é iniciar com tratamento conservador.
A mensagem, hoje, é que o objetivo não é apenas “resolver o rasgo”, mas proteger a articulação pelo maior tempo possível. “Tratar o menisco exige equilibrar o alívio da dor de agora com a saúde do joelho no futuro”, destaca a especialista.


