Paraguai convoca embaixador brasileiro para entregar nota de repúdio após fala de Lula sobre guerra

A contrvérsia começou na última sexta (24) após fala do presidente Lula durante visita à empresa de defesa Avibras Aeroco, em Jacareí.

Foto: José Cruz/Agência Brasil

O Paraguai decidiu convocar o embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, para entregar nesta sexta-feira (31) uma nota de repúdio em relação às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a guerra contra o país vizinho no final do século 19.

“O governo do presidente Santiago Peña e desta chancelaria sempre defenderá os mais altos interesses do Paraguai em todos os âmbitos”, afirmou o ministro das Relações Exteriores da nação, Rubén Ramírez Lezcano, em entrevista coletiva na manhã desta quinta (30).

A controvérsia começou no último dia 24, quando Lula afirmou, em visita à empresa de defesa Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), que as Forças Armadas deveriam estar “bem preparadas e treinadas” devido a “loucos pelo mundo querendo fazer guerra”.

“Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil”, disse o petista. “Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não seria grande coisa, durou cinco anos”, continuou o presidente sobre o conflito armado que colocou a Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai) contra a nação vizinha.

Em tom duro, o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, escreveu em suas redes sociais na segunda (27) que é necessário abordar o conflito com “franqueza histórica” ao comentar a declaração de Lula. “Foi um capítulo vergonhoso, pactuado a partir de um tratado funesto para destruir nossa nação. Aquela guerra, que massacrou nossas crianças, queimou hospitais e saqueou Assunção, enluta a memória”, publicou ele.

Já Rubén Ramírez, o chanceler paraguaio, disse que “permanece ativa a agenda ampla” entre os dois países. “Temos um diálogo permanente e franco com o Brasil. É um aliado estratégico do nosso país, para além desse evento lamentável. Temos interesses em comum muito amplos em comércio, em integração física, em investimentos, em questões relacionadas à segurança da nossa região”, afirmou.

Antes mesmo de o embaixador brasileiro ser convocado, a declaração de Lula já havia repercutido no país.

“Lula, você está falando com muita leviandade sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente”, afirmou o presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, no domingo (26). “A Guerra da Tríplice Aliança, que começou com a intervenção militar do Brasil no Uruguai, devastou o Paraguai e marcou para sempre o nosso povo.”

“Você disse uma vez que iria acabar com a guerra na Ucrânia ‘com uma cervejinha’. Hoje, você volta a falar levianamente sobre conflitos armados nas Américas. Se você ficou sem jabuticabas, podemos te mandar algumas”, continuou o político, correligionário do presidente paraguaio, o direitista Santiago Peña.

Há um mês, Peña deu sinais ambíguos ao encontrar Lula na Cúpula do Mercosul, em Assunção. Os dois líderes se abraçaram de forma calorosa e, em seu discurso de abertura, o líder paraguaio disse que o petista havia virado uma “figura permanente” no bloco devido aos anos que acumula na Presidência do Brasil.

“Celebro sua experiência e reconheço publicamente a admiração que tenho pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, disse Peña, dirigindo-se ao homólogo.

Em seguida, porém, citou Lula ao criticar a implementação do sistema de cotas no acordo com a União Europeia e ao pedir o fortalecimento do Focem, o fundo de redução de assimetrias do Mercosul no qual o governo brasileiro havia sugerido um corte drástico no ano passado, posição da qual Brasília recuou no encontro.

O Brasil voltou a ser citado por Peña quando o presidente paraguaio falou da Ponte da Integração, inaugurada no final do ano passado.

“Acho que abrir a sua passagem foi mais difícil do que abrir o estreito de Hormuz”, afirmou, antes de olhar para Lula e criticar a burocracia no local. “Pouco serve inaugurar pontes se depois temos de transitar e fazer trâmites como fazíamos há 20 ou 30 anos.”

O caso da última semana, no entanto, ultrapassa diferenças ideológicas e revela as diferentes versões a respeito do estopim do conflito.

Mais objetivamente, a guerra começou quando o líder paraguaio Francisco Solano López, em resposta à intervenção militar do Brasil na guerra civil uruguaia, atacou a província de Mato Grosso. No Paraguai, costuma-se creditar a guerra aos interesses do Reino Unido, embora essa versão seja contestada por parte dos historiadores.

Fato é que se trata de um assunto que une paraguaios das mais diversas colorações políticas.

O atleta José Luis Chilavert, ex-goleiro da seleção paraguaia e conhecido por seus ataques à esquerda, por exemplo, foi uma das figuras que se pronunciaram. “Brasileiros, expulsem do governo esse bêbado”, afirmou, pedindo voto a Flávio Bolsonaro nas eleições de outubro. “Ele não sabe nada de história e, como todos os esquerdistas corruptos, mente.”

Mas a fala ressoou mal na oposição também. Para a senadora Esperanza Martínez, as declarações de Lula eram “remanescentes do imperialismo que tentam encobrir uma guerra criminosa e uma política histórica de dominação e abuso da elite brasileira” contra o Paraguai.

DANIELA ARCANJO / Folhapress

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