A capoeira é uma expressão da cultura afro-brasileira onde se misturam elementos da dança, música, arte marcial e esporte. Essa manifestação cultural surgiu com os escravos como forma de resistência à opressão dos senhores de engenho e de preservação de suas identidades culturais.
Devido à sua importância para a cultura brasileira, a capoeira hoje é ensinada em instituições de ensino, como escolas e universidades. Atualmente, ela é regulamentada no Brasil como patrimônio imaterial e livre para ser praticada em todo o território nacional.
Na região da Baixada Santista não poderia ser diferente. A capoeira chegou por volta de 1960, com mestres como Mestre Sombra (Roberto Teles de Oliveira) e Mestre Bandeira (Luiz Sandro Barbosa), que consolidaram escolas na região.
Em junho deste ano, a capoeira santista se mostrou ainda mais importante. Entre os dias 19 e 21 de junho, o Mestre Sombra e o contramestre Ricardo Santos estiveram em Barcelona, na Espanha, para o encontro internacional “Diálogo de Gerações”, onde participaram de rodas, debates, vivências e atividades culturais ao lado de mestres, professores e alunos de diferentes países.
Atualmente, a Baixada Santista e a cidade de Santos, mais especificamente, possuem um projeto de capoeira inclusiva, o Capoeira Escola, comandado pelo Mestre Márcio (Márcio Rodrigues dos Santos), que promove a inclusão por meio da capoeira.
Relação com a capoeira
Márcio começou a ter familiaridade com a capoeira quando criança. Por muito tempo praticou futebol de salão, mas, devido a uma lesão no núcleo do crescimento do tornozelo, ficou nove meses parado. Quando retornou, o ritmo não era o mesmo. Como já havia assistido a uma apresentação de capoeira, o agora Mestre Márcio procurou e começou a praticar a modalidade, e viu que ajudava não somente na parte física, mas também na parte mental.

Devido ao amor pela capoeira, Márcio realizou sua formação acadêmica em educação física no ano de 1999. Além do bacharelado, possui pós-graduação em treinamento desportivo individualizado, arte e cultura afro-brasileira e psicologia do esporte.

Projeto Capoeira Escola
Após anos de prática, o Mestre Márcio, junto ao professor Marcelo Távora, criou o projeto Capoeira Escola, com o intuito de que toda pessoa possa praticar capoeira, independentemente de sua individualidade biológica ou social.

O projeto reúne o saber popular da rica cultura ancestral afro-brasileira, em conjunto com o saber acadêmico científico da pedagogia, da educação física, da psicologicidade e da psicologia da inclusão. Deste modo, os resultados apresentados na formação corporal, no desenvolvimento cognitivo e na formação do caráter são “fantásticos”, de acordo com o Mestre Márcio.
A metodologia do projeto busca o desenvolvimento das inteligências múltiplas psicomotoras, que é uma obra do neurocientista inglês Howard Gardner, na qual os seres humanos devem ser enxergados por meio de seus dons, de seus talentos, em vez de suas dificuldades e deficiências. Com isso, além do desenvolvimento da inteligência corporal, destacam-se a inteligência musical, espacial, intrapessoal e interpessoal, naturalista, contextual, linguística, lógico-matemática, existencial e parapsíquica.
Trabalho com diferentes pessoas
O projeto trabalha com pessoas de diferentes faixas etárias. Com as crianças na educação infantil, a capoeira é trabalhada por meio de cantigas de roda e atividades lúdicas, de modo a colaborar com o esquema corporal e no processo de maturação infantil. As aulas têm duração menor devido ao poder de concentração ser menor, uma vez que vários elementos facilitam esse processo de limitação ou de sensibilidade.
Com as crianças que estão nos primeiros anos do ensino fundamental, a metodologia utilizada nas aulas é voltada para o desenvolvimento da socialização, dando ao aluno a percepção de que o mundo não deve ser egocêntrico e desenvolvendo a relação interpessoal.
Nas aulas adaptadas para pessoas com deficiência intelectual, busca-se compreender as especificidades comportamentais, sejam elas devido ao déficit de atenção, hiperatividade, hipoatividade ou ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). Após isso, serão utilizados métodos para facilitar o processo de ensino-aprendizagem.
Já para aulas com pessoas com deficiências motoras, a ideia é potencializar os membros que não possuem deficiência, de maneira a criar estratégias visando ampliar a mobilidade e facilitar as atividades da vida diária.
Com as pessoas que possuem deficiência auditiva, a metodologia utilizada busca ampliar a comunicação por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras). A leitura labial e a vibração dos instrumentos em contato com o aluno são alguns dos métodos utilizados.
O indivíduo que possui deficiência visual também é atendido pelo projeto. Com ele, é utilizado áudio e autodescrição, além de um processo cinestésico tátil para desenvolver os sentidos do tato e da audição, facilitando o aprendizado.
Com os idosos, compreendem-se as mudanças fisiológicas, seja no sistema cardiovascular, com aumento possível da hipertensão arterial, ou do sistema nervoso, com a perda de neurotransmissores, ou até mesmo do sistema musculoesquelético. É levada em consideração também a questão psicológica, com aumento da ansiedade, medo e depressão, bem como a social, em que muitos idosos se sentem solitários.
O projeto também trabalha com pessoas em vulnerabilidade social que se encontram em situação de rua. Para elas, é oferecida a prática esportiva como forma de reabilitação social e de combate à invisibilidade social, sendo uma motivação, uma forma de resistência, não somente um movimento social.
Desafios
Para o Mestre Márcio, o maior desafio da valorização desta prática inclusiva é “fazer com que a sociedade, e outros capoeiristas, entendam que o projeto é inclusivo, respeita a individualidade de cada segmento, que é terapêutico, educativo, social e performático”.
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