Lucas Bezerra manda o amor para o espaço em disco com releituras do compositor paraibano Totonho

“Eu Mandei Meu Amor Pro Espaço”, primeiro álbum do cearense Lucas Bezerra, acaba de chegar às plataformas de streaming através do selo latino-americano Cantores del Mundo. Ao longo de nove faixas, o cantor presta homenagem ao compositor paraibano Carlos Antônio Bezerra da Silva, conhecido artisticamente como Totonho, principalmente por seu projeto Totonho & Os Cabra, ativo desde o início do milênio.

Totonho aparece na vida de Lucas Bezerra logo em sua juventude. Além do sobrenome, os dois compartilham suas origens no sertão Cariri — Totonho nasceu em Monteiro, no cariri paraibano, e Lucas no Crato, cariri cearense. Em comum, há também o movimento migratório para cidades como João Pessoa, Rio de Janeiro e São Paulo, realizado por ambos os artistas. Durante o período em que morou na Paraíba, Lucas Bezerra conheceu o trabalho de Totonho e, em 2021, começou a conceber a ideia desse disco.

Desde a década de 70, Totonho está envolvido com o fazer musical. Monteiro era considerada a “Meca dos repentistas nordestinos”, o que teve grande influência no envolvimento artístico do paraibano. Aos nove anos de idade, o compositor criou a banda Os Renegados, que tocava com instrumentos de lata. Nos anos 80, contribuiu com a criação do Musiclube da Paraíba, em João Pessoa, por onde passaram nomes como Chico César, Jarbas Mariz, Pedro Osmar e Paulo Ró. Formou-se em Arte e Educação ainda em João Pessoa, mudando-se para o Rio de Janeiro para cursar uma pós-graduação e apostar suas fichas na música. Nessa trajetória, abriu shows, por exemplo, de Geraldo Azevedo e João Bosco, além de reunir, na década de 90, o grupo Totonho e os Cabra, que se classificou no Projeto Pixinguinha, o que permitiu uma turnê inicial em diversos cantos do Brasil.

Até o presente, Totonho segue ativo com o ofício da composição, com uma produção que conta com cinco álbuns de estúdio desde o ano 2000. Em 2026, seu mais recente álbum, Aí Dentu: Funk de Embolada e Hip Hop do Mato (2025), foi vencedor do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, demonstrando a atualidade longeva do artista em um álbum que mistura as batidas do funk com ritmos tradicionais do Nordeste. A experimentação não é novidade para Totonho, que sempre desafiou as fronteiras dos gêneros musicais.

Na contramão da homenagem póstuma, o primeiro álbum de estúdio de Lucas Bezerra lança mão de uma linguagem criativa, ao mesmo tempo que acessível, para destacar a obra de um compositor vivo. “Laurita Dias [diretora artística do disco] foi interlocutora fundamental nesse processo […], e Arthus Fochi [produtor e diretor

musical] teve uma sensibilidade linda na construção dos arranjos, da sonoridade do disco, que é intencionalmente muito diferente da de Totonho. As canções de Totonho dão muito pano pra manga. É impressionante”, afirma Lucas Bezerra.

Lucas Bezerra. Foto: Luciano Pedro Jr.

A escolha das participações especiais no álbum não foi menos significativa que a relação entre Lucas Bezerra e Totonho. Rita Benneditto é parceira de longa data de Totonho. Na mesma época em que o compositor saía da Paraíba em direção ao Sudeste, a cantora e compositora maranhense fazia o mesmo. Ambos construíram uma relação de amizade e reconhecimento musical mútuo. Nos anos 90, Totonho foi o ato de abertura de shows de grandes nomes da MPB, entre eles Geraldo Azevedo, um dos grandes mestres da música brasileira, com quem inclusive já realizou parcerias musicais. Zé Ibarra, cantor e compositor carioca, quando tinha menos de dez anos de idade, gravou zabumba na faixa Poeira Estelar, do álbum Sabotador de Satélite (2005), de onde veio a faixa-título do projeto de Lucas Bezerra, escolhida para acolher essa participação.

Como representação da continuidade da obra de Totonho e afirmação de sua influência, um time de cantautores paraibanos também foi convocado para participar de “Eu Mandei Meu Amor Pro Espaço”: Chico Limeira, Elon, Nathalia Bellar, Nina Ferreira e Titá Moura são expoentes da música paraibana contemporânea e, cada um à sua maneira, carregam as influências poéticas, sonoras e afetivas do conterrâneo. Outros nomes presentes na ficha técnica do disco são Juliana Linhares (RN) e Ítallo França (AL), parceiros de Lucas, que gravaram os vocais de apoio nas faixas vai nevar e tudo pra ser feliz.

Em seu primeiro disco, “Eu Mandei Meu Amor Pro Espaço”, Lucas Bezerra buscou não as canções mais emblemáticas de Totonho para uma coletânea, mas “um conjunto de músicas que compartilhassem um mesmo universo de imagens e de perguntas. Um repertório que pudesse sustentar um arco dramático próprio, internamente coeso, embora diverso”. A partir disso, o disco se mostra como apenas uma das diversas leituras possíveis da obra de Carlos Antônio Bezerra da Silva, sem uma vontade de mimetizar o estilo das produções ou de interpretar as letras da mesma forma que fez seu autor.

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