Com aperto da fiscalização em Santos, tráfico internacional liderado por PCC e CV migra para portos regionais

O aperto na fiscalização do porto de Santos (SP) empurra operadores do tráfico internacional de drogas a diferentes terminais marítimos do país. Os negócios são encabeçados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) e pelo CV (Comando Vermelho) e, em um dos casos, envolve duas máfias europeias, uma italiana e outra albanesa.

Os esquemas movimentam bilhões de reais e incluem uma complexa cadeia criada e constantemente alterada para driblar a fiscalização aduaneira. Contam com mergulhadores, funcionários de empresas de logística cooptados e equipes especializadas em adulterar contêineres.

Quatro investigações federais analisadas pela Folha de S.Paulo dão um panorama do espalhamento geográfico das rotas do tráfico. A lista inclui portos de todas as regiões costeiras do país. Os casos vão de Santana, no Amapá, a Itajaí, em Santa Catarina.

Responsável pelo controle aduaneiro, a Receita Federal reconhece o cenário e afirma acompanhar “permanentemente mudanças nas cadeias logísticas e nos métodos empregados pelas organizações criminosas”. Disse também que mantém uma estratégia nacional para a fiscalização dos portos.

“A adaptação às mudanças de rota não depende apenas da ampliação da presença física. Ela envolve também o aperfeiçoamento da análise de risco, a integração de dados, o intercâmbio de informações com outros órgãos e administrações aduaneiras e o direcionamento mais eficiente das inspeções”, afirmou.

O movimento do tráfico rumo a outros portos acompanha o endurecimento do controle de cargas em Santos, o maior da América Latina.

O porto hoje tem 17 scanners, cobertura de videomonitoramento com 4.400 câmeras e um esquema de segurança com drones e captação de ondas de calor que acompanha a movimentação no terminal. A Folha esteve no local no início de agosto.

Isso não significa que o porto esteja blindado. Uma das vulnerabilidades atuais está na chamada área de fundeio —uma extensa zona marítima onde navios ficam ancorados antes de chegar ao porto.

“As drogas continuam fluindo”, diz a pesquisadora Isabela Vianna Pinho, cuja tese de doutorado pela USP analisou o tráfico internacional pelo porto de Santos. Na terça (18), por exemplo, 702 kg de cocaína foram apreendidos numa carga de café que sairia do porto com destino à Europa.

A questão, diz o auditor fiscal Ivan da Silva Basílico, chefe da Divisão de Vigilância e Repressão da Alfândega de Santos, é que o envio ficou mais difícil. “Quem tentava enviar droga por aqui teve de procurar novas rotas”, afirma.

Investigações confirmam a observação. A maior delas, a operação Conexão Paraíba, foi deflagrada em 2024 contra 15 suspeitos de operar um esquema de tráfico internacional por meio de portos do Nordeste. Há menções aos terminais de Suape (PE), Pecém (CE), Cabedelo (PB), Fortaleza, Salvador e Natal.

O caso entrou na mira da PF em 2021 após a prisão de Vincenzo Pasquino e Rocco Morabito, italianos que, segundo a polícia, faziam a ponte entre a máfia ‘Ndrangheta e o PCC. Eles foram extraditados para a Itália.

Segundo a polícia, o grupo movimentou R$ 4 bilhões em seis anos e continuou a operar depois da prisão dos europeus.

Os envios se davam preferencialmente pelo Sudeste, mas novas rotas precisaram ser pensadas ante a constatação de que “em Santos está ruim de trabalhar” —mensagem extraída do celular de Nicholas Evangelista, um dos envolvidos no caso.

A polícia diz que Nicholas era braço-direito de Vincenzo e mantinha contato com operadores do PCC e da máfia ‘Ndrangheta. Afirma ainda que ele auxiliou na estadia de mafiosos albaneses no Brasil, grupo que permaneceu semanas numa casa bancada pela facção paulista em João Pessoa.

O esquema se valia também de doleiros, sustenta a PF, e uma casa de câmbio na avenida Paulista, em São Paulo, para dissimular a origem dos recursos. As cargas eram enviadas à Europa com rastreadores para que cada movimentação pudesse ser acompanhada —havia gente no Brasil e na Europa de olho nisso.

A reportagem não identificou a defesa de Nicholas, contra quem há um mandado de prisão ainda pendente de cumprimento. No ano passado, a Justiça determinou a inclusão de seu nome na difusão vermelha da Interpol.

A queixa dele sobre o maior terminal da América Latina não foi a única. “O porto de Santos está babado [vigiado]”, disse Adson Jesuíno Cruz em 2023, numa conversa obtida pela PF. Ele foi um dos alvos da operação Novos Rumos, que mirou esquema de tráfico por portos de Santos e do Paraná. A melhor opção, disse naquela ocasião, seria o porto de Paranaguá.

Procurada por e-mail na terça e quarta-feira (19), a defesa dele não respondeu. Os advogados sustentam em juízo que a denúncia contra Jesuíno é genérica e não descreve exatamente o crime que teria cometido.

O terminal de Paranaguá é o mesmo por onde membros do PGC (Primeiro Grupo Catarinense), de Santa Catarina, tentaram enviar ao menos cem quilos de cocaína em 2023. As drogas foram apreendidas, mas a PF suspeita que outras remessas passaram ilesas.

Além do Paraná, a investigação do caso cita também os portos de Navegantes, Imbituba, Itapoá, Itajaí e São Francisco do Sul, todos de Santa Catarina, e diz que os suspeitos mantinham “vultosa capacidade financeira e aparato operacional robusto” —além de toneladas de cocaína, a PF também apreendeu fuzis, pistolas, granadas e metralhadoras .50 ao cumprir mandados de busca e apreensão contra os envolvidos.

O PGC é associado do Comando Vermelho, a maior facção do Rio de Janeiro e rival do PCC, o que não impede que as três facções mantenham presença nos mesmos portos. Parece contraditório, mas há elementos que apontam para uma coexistência pacífica quando o assunto envolve interesses comuns.

“É tudo em função do business. O PCC tem sua logística, o CV a dele e ninguém pisa no calo um do outro”, diz o agente da PF e pesquisador da ONU (Organização das Nações Unidas) Christian Vianna, atual subsecretário de Integração da Segurança em Minas Gerais.

Do contrário, afirma, todos sairiam prejudicados.

Investigações sobre o PCC e também sobre o Comando Vermelho atribuem a ambas as facções operações de tráfico nos portos de Paranaguá, Itajaí, Navegantes e Itapoá —no caso do CV, muitas vezes por meio do Primeiro Grupo Catarinense.

Segundo Vianna, os grupos usam também os mesmos operadores. No final de junho, uma investigação da PF mirou suspeitos de comandarem um esquema de tráfico internacional que prestava serviço tanto à organização carioca como à paulista.

Não há um trajeto específico pelo qual criminosos passaram a ter preferência, mas apreensões em portos outrora mais calmos pegam autoridades de surpresa. Ao depor à Justiça no ano passado, por exemplo, o delegado da PF no Amapá Bruno Belo disse que uma apreensão de 155 kg cocaína feita em Santana havia sido até ali “a única operação nesse teor” em dois anos de atuação no local.

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ANDRÉ FLEURY MORAES / Folhapress

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