Após descumprir regra, X atualiza algoritmo para impedir que perfil de candidato seja recomendado a usuários

Na prática, isso significa que as plataformas não podem exibir o conteúdo da conta de um candidato para alguém que não segue esse perfil.

Pelas regras do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), as redes sociais devem excluir os perfis declarados pelos candidatos de seus sistemas de recomendação de conteúdo durante a campanha eleitoral.

Na prática, isso significa que as plataformas não podem exibir o conteúdo da conta de um candidato para alguém que não segue esse perfil.

A intenção da norma é minimizar a possibilidade de haver um tratamento desigual das candidaturas por parte dos algoritmos das empresas -a única exceção prevista são os posts impulsionados mediante pagamento.

Análise da organização Sleeping Giants Brasil e também pesquisa realizada pela própria reportagem demonstram que, até esta terça-feira (25), o X (ex-Twitter) não tinha aplicado esse filtro igualmente a todos os candidatos que informaram ao TSE ter um perfil na plataforma.

Após ser questionado pela reportagem, o X alterou seu algoritmo para incluir mais nomes na noite de terça.

No último dia (14), o X anunciou que aplicaria a regra e, para fins de transparência, divulgou o algoritmo por meio do qual implementaria o filtro. No documento da empresa, constavam até esta a tarde de terça 665 contas. Ao passo que os perfis no X declarados ao TSE pelas candidaturas passavam de 2.107 segundo análise da reportagem.

Ou seja, havia pelo menos 1.442 contas de candidatos que não estavam sendo bloqueadas pelo filtro e que poderiam aparecer como recomendação para todos os usuários. Durante a navegação na plataforma, a reportagem identificou diversos perfis, de diferentes siglas que o X seguiu recomendando, apesar de terem sido informados ao TSE.

Após contato da Folha questionando a empresa a respeito desses dados, lista de contas de candidatos sujeitas ao filtro aumentou para quase 2.400 na noite de terça. Depois disso, a reportagem não encontrou mais recomendações de perfis de candidatos.

Desse modo, aqueles que foram filtrados a partir do início da campanha, em 16 de agosto, tiveram um prejuízo em comparação aos demais ao menos nesse intervalo.

Apesar da alteração, a empresa não respondeu a reportagem até a publicação deste texto.

Outra lacuna na implementação da regra do TSE, porém, passa pelas próprias candidaturas. Algumas das contas que apareceram na aba recomendada não tinham sido declaradas ao TSE ou foram declaradas com erros de digitação.

Para identificar se os perfis estavam sendo recomendados, a reportagem criou duas contas no X, respectivamente nos dias 24 e 25, e não seguiu nenhum candidato.

Ao longo da navegação, diversos perfis informados ao TSE apareceram na aba “Para Você“, justamente aquela em que a rede social declarou que bloquearia os candidatos.

Fernando Haddad (PT), Guilherme Derrite (PL), Erika Hilton (PSOL), Carlos Viana (PSD), Bruno Engler (PL) e Marcelo Freixo (PT) estão entre os candidatos que tiveram seu conteúdo exibido na aba recomendada durante a análise da Folha e que declararam seus perfis ao TSE. Em navegação após a alteração do algoritmo, não foram identificados pela reportagem outros posts de contas declaradas à Justiça Eleitoral.

Esse cenário também foi identificado pela organização Sleeping Giants Brasil, que coletou dados da navegação por meio de ferramentas digitais e compartilhou esses arquivos com a reportagem

A organização coletou evidências de nomes de diferentes siglas e matizes ideológicos aparecendo na aba “Para Você”, incluindo posts de Alfredo Gaspar (PL), vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Também apareceram posts de diferentes postulantes ao Senado, como Marina Silva (Rede), Deltan Dallagnol (Novo), Benedita da Silva (PT) e Rodrigo Valadares (PL).

Entre os que disputam uma vaga na Câmara dos Deputados, da mesma forma, foram identificados diversos exemplos. A lista inclui Rosangela Moro (PL), Orlando Silva (PCdoB), Jones Manoel (PSOL), Lucas Pavanato (PL), Anielle Franco (PT), Marina Helena (Novo) e Gil Diniz (PL).

“Estamos há mais de uma semana de campanha em que a plataforma trata de maneira desigual candidatos que estão tendo a sua conta removida dos algoritmos de recomendação daqueles candidatos que estão tendo as suas contas e os seus conteúdos exibidos”, diz Humberto Ribeiro, cofundador do Sleeping Giants Brasil.

Ele pondera, por outro lado, que o cenário nas outras plataformas pode ser ainda pior, mas com um nível de transparência menor que o do X, que publicou o código de como implementaria a regra.

Dentre os nomes ausentes do algoritmo até esta terça estavam inclusive concorrentes à Presidência, como Ronaldo Caiado (PSD) e Pablo Marçal (PRTB). Além de Alfredo Gaspar, entre os vices, tampouco Gilberto Kassab (PSD) aparece.

E, assim como Erika Hilton, um dos nomes mais proeminentes nas redes à esquerda, Nikolas Ferreira (PL), que é um dos mais populares nas redes à direita, não estava no algoritmo.

A reportagem questionou ainda por qual motivo o X decidiu não suspender a recomendação de perfis de candidatos em funcionalidades como “Quem seguir” e “Talvez você curta”, em que a plataforma sugere contas para os usuários, mas não houve resposta.

O anúncio do X, de Elon Musk, gerou mais um episódio de atrito entre Estados Unidos e Brasil no contexto da regulação de redes sociais. Uma alta funcionária do governo Donald Trump – Sarah B. Rogers, subsecretária de Estado para Diplomacia Pública- divulgou o post da empresa e classificou a medida como uma “censura imposta pelo Brasil”.

Ainda que a intenção da regra do TSE seja de evitar a interferência das plataformas nas campanhas digitais, uma das críticas feitas ao dispositivo é que ele acaba por fazer com que candidaturas com menor alcance e número de seguidores dependam mais de plataformas que oferecem anúncios pagos.

RENATA GALF / Folhapress

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