Yvonne Lara da Costa, eternizada no panteão da arte brasileira como Dona Ivone Lara, possui uma trajetória que combina o pioneirismo artístico de uma das maiores compositoras do país com uma carreira acadêmica e humana de valor inestimável.
Primeira mulher a assinar um samba-enredo e a integrar a seleta ala de compositores de uma escola de samba de grande porte — a Império Serrano, em 1965 —, Dona Ivone rompeu barreiras estruturais em um ambiente predominantemente masculino e por vezes preconceituoso. Com sua voz doce, seu cavaco afiado e sua elegância natural, ela compôs algumas das melodias mais belas e duradouras da história do samba, garantindo o título indiscutível de “Rainha do Samba”.
Sua relação com a música começou ainda na infância, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, em uma família onde a arte era presença constante. Contudo, antes de se dedicar integralmente à carreira artística na maturidade, Dona Ivone Lara construiu uma trajetória profissional impressionante na área da saúde. Formada em Enfermagem e com especialização em Serviço
Social, ela trabalhou por mais de 30 anos no sistema público de saúde mental do Brasil. Durante décadas, atuou no Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro, trabalhando diretamente com a revolucionária médica Dra. Nise da Silveira. Dona Ivone foi uma das pioneiras na utilização da música e de atividades terapêuticas no tratamento de pacientes com transtornos mentais, defendendo a humanização do atendimento e o fim do isolamento asilar.
No universo do samba, sua contribuição foi revolucionária. Em uma época em que as mulheres eram restritas aos papéis de passistas, baianas ou intérpretes casuais, Dona Ivone Lara impôs seu talento como criadora e melodista. Em 1965, ao lado de Silas de Oliveira e Bacalhau, assinou o histórico samba-enredo “Os Cinco Bailes da História do Rio”, para a Império Serrano, que conquistou o campeonato daquele ano. Sua capacidade de criar harmonias sofisticadas com letras de profunda sensibilidade poética deu origem a clássicos absolutos da música brasileira, como “Sonho Meu” (imortalizada em sua voz e na de Maria Bethânia), “Alguém Me Avisou”, “Acreditar” e “Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço”.
A obra de Dona Ivone Lara destaca-se pela fluidez com que transita entre o erudito e o popular, mantendo sempre o vínculo inegociável com o samba de terreiro e o partido-alto. Suas composições possuem uma assinatura melódica marcante, caracterizada por contratempos elegantes e um balanço suave que se tornou referência para gerações de músicos de todas as vertentes da MPB. Artistas dos mais diversos gêneros, do MPB ao pop, regravaram suas canções, demonstrando a universalidade e a temporalidade permanente de seu repertório. Dona Ivone levou a dignidade e a sofisticação da mulher negra brasileira para os palcos do mundo inteiro, apresentando-se em diversos países e recebendo homenagens de instituições culturais globais.
O legado de Dona Ivone Lara reside na sua dupla revolução: a transformação da abordagem terapêutica na psiquiatria brasileira e a conquista definitiva do espaço feminino na criação musical do samba. Sua vida é um exemplo de dedicação ao cuidado com o outro e de celebração da beleza através da arte. Até seus últimos anos de vida, Dona Ivone continuou a se apresentar com a mesma graciosidade e paixão, encantando plateias de todas as idades. Sua figura permanece como um farol de resistência, delicadeza e força criativa, lembrando ao Brasil que a história do samba foi construída, em grande medida, pelas mãos e pelas mentes de mulheres negras extraordinárias.


